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Está-me no sangue?

por reporterdesaltosaltos, em 11.08.11

Eu sei que na verdade não me está no sangue, mas às vezes é como se estivesse. Ao longo da vida, as nossas experiências e os ensinamentos que nos transmitem, acabam por se enraizar de tal forma, que passam a fazer parte de nós, como se na realidade tivessem mesmo nascido connosco. O meu pai e a minha mãe tiveram aqui um contributo essencial na minha vida. Ainda que em lados opostos, cada um deles ensinou-me algo muito importante. A minha mãe ensinou-me a ter valores. O meu pai ensinou-me a... Como dizem os americanos? Isso, a desenvolver "skills".

 

A minha mãe é a pessoa mais honesta à face da terra. Sempre trabalhou duro, sempre foi responsável e honesta com as suas obrigações e sempre cumpriu com os seus deveres. Sempre me ensinou a agir da forma mais correcta, independentemente das situações, dos benefícios e das desvantagens que originassem na minha vida. Acho que me passou isso bem. Em situações inesperadas de confronto de valores opto em 90% dos casos com absoluta honestidade e quase sempre estou a agir sem pensar. Recordo-me que há uns anos, fui com a minha mãe levantar dinheiro ao banco, tipo 1.000€ ou coisa parecida. Estávamos ao balcão, o senhor do banco contou o dinheiro à nossa frente duas vezes, meteu no envelope e deu-me. Fomos para o carro e não sei porquê voltei a contar o dinheiro. Tinha 100€ a mais. Sem sequer pensar no assunto, já estava a sair do carro e fui devolver o dinheiro. O senhor quase chorou a agradecer (parece que tinha de devolver do bolso dele quando há faltas na caixa) e não acreditava que eu estava mesmo a devolver o dinheiro.

 

Recordo-me também de outra situação, em que eu e um namorado fomos passear e ao estacionar ele bateu num carro.Uma amolgadela ligeira e uns riscos. Ele queria ir-se embora porque quase nem se via. Eu queria ficar até chegar o dono do carro ou ele deixar um bilhete com o contacto. Discutimos. Eu ganhei. Ficámos! Horas! E quando chegou o dono do carro (que afinal não se importou com a mossa e nunca activou o seguro) fartou-se de elogiar a honestidade dele. Dele? Minha! Mas ele assumiu os louros e eu decidi não o desmascarar porque devia estar muito bem disposta! Mas nada disto faz de mim uma pessoa honesta. São apenas episódios que contrastam com todo o resto da minha vida, feita de outros episódios e de outros ensinamentos.

 

 

 

O meu pai. O meu pai ensinou-me exactamente o contrário. Basicamente o meu pai transmitiu-me com a mesma sabedoria e experiência que na vida o que interessa é atingir os fins. Os meios são a modos que algo versátil. Ensinou-me a ser a mais esperta (esperta é sempre pouco). Ensinou-me que tudo é possível. Tudo! Ensinou-me que todos os problemas têm solução e que não podemos deixar-nos abater por motivo algum. Ensinou-me a escolher o caminho mais fácil, mais rápido e mais directo para chegar ao meu destino. Por mais que me custe admitir ensinou-me as tais "skills" que nos dias de hoje são essenciais à vida e à sobrevivência. Ensinou-me também que os processos em tribunal prescrevem... Digamos que o meu pai é o típico tuga. O espertalhão. De facto é o que ele tem sido e tem-se safado bem. Posso dizer que me ensinou também a desenrascar-me (o meu verbo preferido) em qualquer situação. A ser uma pessoa prática. A ver as oportunidades e a correr atrás delas. E se elas não existem, a criá-las... No fundo, a ser mais esperta que os outros.

 

Agora se me perguntarem o que é que prefiro? Eu respondo. Gosto muito de ser mais esperta que os outros mas prefiro sempre ser mais honesta. Como em tudo na vida temos de ter equilíbrio e discernimento para aplicar a atitude certa, com as pessoas certas e na altura certa. O meu critério depende muito dos envolvidos. Se o envolvido vai ser prejudicado injustamente (senhor do banco ou dono do carro) não hesito em ser honesta. Se por outro lado, é uma questão de sobrevivência e de competição, e sei que o envolvido vai lutar com as mesmas armas que eu, aí sim, não hesito em ser mais esperta. E saíam da minha frente!!! Porque como diz o outro "o medo a mim é uma cena que não me assiste".

 

Vou à praia...

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publicado às 13:51


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