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Muda a cada segundo

por reporterdesaltosaltos, em 22.04.15

 

Regressada de férias da Páscoa (sim já lá vai um tempinho) e dos meus mil projetos, decidi partilhar com todos o meu livro "A cada segundo". Quero muito que um dia seja publicado com fins exclusivamente sociais e tenho a certeza que só por isso vai ser um sucesso. É que tenho uma teoria sobre a "Mão de Deus"... Já me aconteceu participar em corridas/passeios solidários, em meses particularmente difíceis em termos de meteorologia, com elevada probabilidade de chuva. O que acontece? Por pior que esteja o tempo na véspera, no dia da corrida o sol brilha, sem sombras no céu, sem chuva e até parece que a temperatura fica agradável. Como se Deus protegesse esse dia e esse evento porque afinal de contas, é por uma boa causa... Até lá, vou partilhar aqui. São 11 capítulos. Obviamente que cada capítulo será dividido por alguns posts. Espero que gostem ;-) Vão dando o vosso feedback. 

 

Capítulo 1

 

Voo TAP quê?

 

Lisboa, 24 de Agosto de 2013

 

O comandante havia recebido instruções para atrasar a aterragem exactamente quinze minutos. Por volta das oito da noite, o airbus sobrevoava a costa de Lisboa pela segunda vez e àquela hora eram ainda perfeitamente visíveis as praias cheias de gente. Uma onda de calor invadira Lisboa e parecia não querer arrefecer. Mais de quarenta graus centígrados fazia de quem estava de férias prisioneiro em casa durante boa parte do dia. Depois das quatro da tarde a temperatura tornava-se suportável e as pessoas arriscavam sair à rua, de preferência à praia. Os banhos de mar refrescavam o corpo e acalmavam os ânimos até anoitecer. Naquele final de tarde de calor intenso, o céu estava rosado. Lindo. Doce. Doce como Margarida.

 

Margarida Gomes regressava de Moçambique num voo que parecia também ele não terminar. Saíra de Maputo onze horas depois do previsto, o que tornara aquele adeus ainda mais doloroso. Fora voluntária da AMI durante seis meses e foi ali que encontrou o amor. O verdadeiro amor. Aquele que não desaparece com o tempo, que não se desgasta, que nunca morre mas que sempre aumenta. O amor de dar. E de receber. Somente um sorriso. Apesar de tudo Margarida estava mais feliz que nunca. Tinha cumprido a sua missão e estava de regresso a Lisboa. Amava Lisboa. Amava a sua cidade e o seu país. Margarida adorava viajar, sentia-se realizada. Sorria e respirava calmamente. Estava feliz por voltar. Não há nenhuma terra no mundo melhor que a nossa. Chegar ao nosso ponto de partida, onde tudo começa e onde tudo deve acabar. Era assim para Margarida.

 

Sob aquele céu rosado e profundo, Margarida sobrevoava Lisboa, nostálgica daquele céu, daquele mar, daquela terra sem par. Ficou entusiasmada ao sobrevoar a costa e com os restantes passageiros aplaudiu atabalhoadamente aquela repetida passagem sobre o mar. Estavam milhares de pessoas na praia ao final da tarde, quase noite. Lembrou-se do que era passar a semana atarefada, a suspirar pelo sol e pelo cheiro a protector solar com aroma de coco. Costumava suspirar debruçada sobre o balcão e pedia a São Pedro por um fim-de-semana de praia. De praia à séria e sem qualquer nuvem. Ir bem cedo para a Costa, evitar as filas, chegar à praia ainda com uma brisa fresca e com a praia vazia, estender a tolha, abrir o chapéu-de-sol, montar o pára-vento e esconder a geleira à sombra. Gostava daquele ritual. Sentia-se parte do povo e não via mal nisso. Era uma das poucas coisas da sua vida que a fazia sentir igual ao resto do mundo. Era só uma mulher que adorava ir à praia. Chegava sempre sozinha e por volta das dez da manhã lá apareciam as suas amigas mais íntimas. Às vezes traziam os namorados, outras vezes a família. Margarida fazia sempre sandes especiais e sempre diferentes. Gostava de inventar e de surpreender e levava sempre mais comida do que a que normalmente precisava. Era generosa. Gostava de oferecer a comida aos vizinhos de chapéu de praia, geralmente idosos ou crianças. Por vezes, também se atrevia a oferecer a homens que tal como ela iam para a praia com os amigos. Chegou mesmo a conseguir conquistar pela boca e duas ou três vezes teve mesmo convites para sair. Nunca aceitou. Era demasiado tímida. Também inventava bebidas de frutas. Uma espécie de batidos quase sempre combinados com ervas aromáticas, misturas que só a ela lembraria. Eram refrescantes e muito apreciadas. Margarida passava o dia à beira-mar, entrava na água, molhava o corpo e voltava à toalha para colocar mais protector. Com aroma de coco. Isso nunca podia faltar. Às vezes com uma ou outra amiga percorria mais de dez quilómetros pela praia. Ajudava-a a manter a figura magra e elegante, mas não ajudava nada o seu cabelo loiro que secava mais que palha ao sol no pico de Verão. Em miúda, em jeito de lugar comum chamavam-lhe "caracolinho dourado" e até faria jus ao nome não fosse uma juba de leão tão indomável. A mãe tentava penteá-la antes de ir para a escola mas acabava por desistir. Dizia-lhe que ele, o cabelo, era assim por alguma razão e não o deviam contrariar. Há que respeitar um cabelo que só vai para onde quer. Um cabelo que com o sal do mar ficava tão hirto como se saído do cabeleireiro depois de ser penteado com uma lata de laca inteira. No final do dia, também a sua cara ficava marcada pelo mar. Pequenas rugas de sal espalhadas pela cara. A praia para ela terminava bem tarde, já quase a anoitecer para aproveitar cada raio de sol até ao último segundo. Desmontava tudo, arrumava a bagageira do carro, limpava os pés vagarosamente com a toalha, sentava-se e encostava a cabeça no banco. Sentia-se sempre feliz naquele preciso momento. Antes de pôr o carro a trabalhar. Ia para casa com a alma cheia de sol e de mar, atravessava a ponte a cantar com o rádio no máximo e seguia para o seu bairro. Alfama. Tinha saudades de Lisboa.

 

Margarida lembrou-se também da partida para a sua missão de voluntariado cerca de seis meses antes. Preparou-a com todo o cuidado. Meio ano num país desconhecido, fazer voluntariado, uma aventura, o inesperado a cada momento, a incerteza. Todos achavam que estava louca. Completamente louca. Mas ainda assim compreendiam a sua necessidade e a sua vontade. Era a sua verdadeira vocação. Ajudar quem mais precisava. Dar sem esperar nada de volta. Amar sem esperar ser amada. Era assim Margarida. Um coração do tamanho do mundo que abraçava o mundo de coração aberto e com as duas mãos. Deixou a sua casa emprestada a um casal amigo em início de vida, a sua preciosa e estimada Vespa 125 GT azul-bebé ao uso e guarda da sua melhor amiga, Maria, bem como a sua mais que tudo, a sua golden retrivier Candy. Deixou Lisboa como se tivesse tudo e nada em simultâneo. Como se tudo e nada procurasse e se encontrasse do outro lado do mundo.

airplane-landing-sunset_645x400.jpg

Beatriz Paradela detestava o calor. Sobretudo aquele calor infernal que nem a deixava pensar. Aliás, não a deixava fazer nada. Odiava a praia, aquelas multidões sôfregas por um metro quadrado de areia dourada e um banho de água salgada. Odiava sentir areia nos dedos dos pés e sentia-se um vulcão prestes a explodir sempre que enfrentava filas de trânsito. Depois do trabalho, em vez de ir a correr para a praia fugia sempre para locais improváveis e praticamente desertos. Gostava da Casa da Cerca. No Verão ninguém apreciava a cultura. Ela sim. Gostava de estar rodeada de coisas belas, peças belas, quadros, esculturas, vistas, e na Casa da Cerca a vista sobre Lisboa era incrível. O azul do rio contrastava com todas aquelas cores da cidade e naquela tarde, com o céu quase rosa, Beatriz sentia-se de novo inspirada. Há bastante tempo que não se sentia assim. Refugiada naqueles jardins, sentada de baixo de um velho carvalho, sentia o fresco da noite a chegar. A brisa do rio subia a falésia e encontrava-se com ela a meio do jardim. A rega também ajudava. Havia ali um conjunto de variantes que tornavam profundamente calma, fresca e agradável aquela sua escapadela. Abriu a mala riscada de azul-escuro e rosa e tirou o computador. Antes de o ligar e enquanto bebia água engarrafada com sabor a frutos silvestres, reparou num homem que passeava vagarosamente mas tenso junto ao muro virado para Lisboa. Ligou o computador, inseriu a password, e rapidamente se ligou à internet e abriu o processador de texto. Começou a escrever um rascunho. Ainda não sabia bem sobre o quê. Olhou para o céu e viu a chegar, voando mais baixo que o normal um avião da TAP. Achou que era um bom começo. Não os aviões mas o facto das pessoas se cruzarem tantas vezes e em tantos lugares, sem nunca se aperceberem. Decidiu escrever sobre encontros e desencontros. Virada para Santa Apolónia, focou-se naquele rosa intenso e começou.                           

                                    

Aeroportos. A vida é muito parecida com os aeroportos. Há sempre pessoas a chegar e há sempre pessoas a partir. Há sempre pessoas que aguardam por quem chega e há sempre pessoas que se despedem de quem parte. Há ainda uma terceira categoria. Os turistas de aeroporto. Não vão apanhar nenhum voo, não estão à espera de ninguém e não se vão despedir de ninguém. Andam simplesmente a vaguear por ali à espera de perceber se estão a partir ou a chegar. “                                                                                                       

     

Não sentiu que estava no caminho certo, apagou tudo e começou de novo.        

           

As minhas unidades de tempo preferidas são os segundos. A importância que poucos segundos podem ter na nossa vida é absolutamente impressionante. Há vezes em que apenas um segundo é o suficiente para tudo mudar. É o suficiente para proporcionar um encontro ou talvez um desencontro. É o suficiente para cruzar a passadeira e encontrar um velho conhecido. Ou alguém novo. Alguém que pode mudar a nossa vida das mais variadas formas. É o suficiente para desviar o olhar e ter um acidente. É o suficiente para cortar um dedo enquanto se cortam os legumes. E bastam alguns segundos para morrer e alguns segundos para nascer. Basta apenas um segundo. Um segundo a mais num olhar e é luz verde para quem nos olha. Dois segundos a mais num olhar e há um calor diferente. Três segundos e ficamos a pensar, às vezes a tremer. Mas basta um segundo, apenas um segundo, para aquele olhar, ser o suficiente para alguém se apaixonar.”                                                

 

Beatriz sentia-se agitada sem conseguir perceber porquê. Inquieta. Distraída. Aquele homem ao fundo do jardim parecia estar a perturbá-la. A deixá-la tensa. Momentos antes estava bastante inspirada mas por alguma razão não conseguia concentrar-se. As frases não fluíam. Escrevia e apagava. Escrevia e apagava. Escrevia e apagava. Escrevia e apagava. Decidiu parar e observar o seu objecto de distracção. Ele andava de um lado para o outro, vagarosamente mas tenso. Cada vez mais tenso. Beatriz sentiu o impulso de ir falar com ele e levantou-se. Caminhou apenas três passos e começou a correr.

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publicado às 08:51



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