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Eu sou a prima Vera

por reporterdesaltosaltos, em 25.03.15

 

Sempre tive uma considerável paixão pelo mês de Março. Comemora-se o dia do Pai e o dia da Mulher, três enormes amigas minhas fazem anos, a minha prima Ana, a Carolina e a minha São, e começa a primavera. É certo que também começam as alergias e que está um vento insuportável mas a paisagem aos poucos fica mais bonita e mais romântica. Mais importante é que a minha avó Amélia também fazia anos no mês de Março. Morreu com 103 anos. Se fosse por ela, há uns dias atrás, teria comemorado 111 a comer um Happy Meal.

 

A minha avó Amélia era assim. Rebelde e intempestiva como nunca conheci ninguém. Nos últimos anos de vida descobriu o Mac e o Happy Meal e não queria outra coisa. Sempre que eu saía de casa para lhe ir buscar um miminho perguntava-lhe baixinho se queria ir comigo. Para ela, melhor que comer um hambúrguer só mesmo andar de carro. A minha mãe ralhava mas ela, sentada no sofá, ria com os dentes todos, esbugalhava os olhos e acenava com entusiasmo para a levar comigo.

 

E lá íamos nós. Nessa altura já estava bastante debilitada fisicamente e demorávamos uns bons dez minutos só para chegar ao carro que estava a menos de 20 metros da porta de casa. Demorávamos mais dez minutos só para ela entrar no carro sem se magoar e colocar o cinto. Finalmente dentro do carro eu dava à chave e ela ria como uma criança de três anos. Uma coisa tão simples, dava-lhe um prazer enorme… Eu fazia o percurso de cerca de 5 km o mais devagar possível. Não havia grande trânsito mas tive sempre duas coisas no pensamento. Ir com todo o cuidado para garantir que ela chegava em segurança e mais importante, garantir que aquela viagem – de “cú tremido” como ela dizia – demorava o tempo suficiente para ela a apreciar.

 

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Muitas vezes preferia ir ao “McDrive” para ser mais rápido mas ela não. Ela queria ir comer dentro do Mac. E lá íamos nós. Tirar o cinto, sair do carro, caminhar a passo de caracol, sentá-la à mesa. Ia buscar o seu Happy Meal e uma tarde de maçã. Ria a virar – muito devagarinho - o pacote das batatas no tabuleiro e pedia sempre para eu pôr muito ketchup porque já não tinha força para abrir a embalagem. Comia o hambúrguer com tanta vontade que se me distraísse até comia o papel. Acaba a saborear a tarte como se aquela tivesse sido a melhor refeição da sua vida. As pessoas nas mesas à volta olhavam para ela com satisfação e ternura. Acho que nessa altura ela já nem se apercebia disso. Era mesmo como uma criança. Satisfeita com a vida e indiferente à sua volta. Acho que nesses pequenos momentos a fiz muito feliz…

 

Voltávamos a casa e a minha mãe furiosa porque eu tinha “levado a velhota” e que ela se cansava e que se podia magoar e que lhe podia fazer mal e sei lá mais o quê. Aos 103 anos acredito muito poucas coisas nos podem fazer mal, exceto a morte claro, que de resto ela não temia. No próximo verão faz 8 anos que ela morreu. Um dia e um momento que nunca irei esquecer. A minha avó Amélia foi uma mulher extraordinária. Ela sim era uma fura-vidas e um furacão. Não tinha medo de nada nem de ninguém e nem de dizer o que pensava. Era uma mulher do povo que chamava as coisas pelos piores nomes mas fazia-nos rir e acreditar todos os dias que amanhã é o melhor dia. Amanhã é sempre o melhor dia para começar de novo e arregaçar as mangas sem medo. Amanhã, mesmo que não corra bem, vamos rir ou pelo menos sorrir. Porque para ela o mais importante era acreditar que o melhor era sempre possível.

 

Continuo todos os dias a lembrar-me da avó Amélia. E sei que onde quer que esteja está bem. Como sempre esteve. Mesmo quando não estava. Era assim a minha avó Amélia.

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publicado às 20:28


1 comentário

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De Ana Fonseca a 26.03.2015 às 18:51

Muito lindo o teu post.

Ela irá sempre estar viva na tua memória e tenho-te a dizer que te passou o legado do optimismo e da força de carácter.

Tenho também alguém que me é muito querido e jamais vou esquecer. Em todos os momentos de felicidade ou tristeza profundas, o meu pensamento está com ela. A tua avó Amelia e a minha madrinha Adelaide onde quer que estejam devem de certo ser amigas e trazer felicidade a quem estiver por perto.

Bjs

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