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Eu, ele e o outro

por reporterdesaltosaltos, em 03.06.15

 

Há umas noites atrás estava a atravessar a ponte e passou na rádio uma música do Phil Collins. Automaticamente voltei aos meus 13 anos, às matinés de Sábado e Domingo no Visage e à minha paixão pelo Mário. De um momento para o outro tive um acesso de recordações combinadas com a estranha sensação de perda de memória em relação a algumas coisas. Mas não é isso mesmo que fazemos ao longo da vida? Lembramos as coisas boas e esquecemos, ou pelo menos tentamos esquecer as más?

 

Quando dei por mim estava a contar à minha sobrinha... O início da minha adolescência, como de resto a de toda a gente, não foi fácil. Em menos de nada, os rapazes, que até aí não passavam de colegas de corridas de bicicletas, foram como que iluminados por uma estranha luz que me fazia olhar para eles de uma forma diferente. De repente, passei a sentir-me mais atraída por eles. Não sei bem o porquê. Mas de repente eles tinham a minha atenção e eu andava doidinha. 

 

Nesta altura estava ainda a modos que a recuperar da paixão mais (e única) platónica da minha vida. O meu corpo estava a chegar ao máximo do seu esplendor hormonal e sinceramente tenho o ideia que nesta fase já só pensava em rapazes. Eis que surge um. O Mário. Era uma figura curiosa. Era giro. Não era bonito. Tinha piada e vesti-se bem. Digamos que era cool. Beijava muito bem mas eu saía de ao pé dele a cheirar a saliva com se tivesse acabado de lamber mil cartas para entregar nos correios. 

 

Sábado à tarde, lá ia eu para a matiné do Visage. O Sábado era um fracasso. Era rara a vez que entravam mais de 30 pessoas. Eu era uma delas, uma verdadeira habitué, isto claro na sequência da minha mãe ser empregada lá - e colocar todos os seguranças, barmans e sei lá eu mais quem, particularmente atentos os meus movimentos... Mas eu aproveitava ao máximo a minha liberdade condicionada e ia divertir-me. Assim que abriam as portas lá me colocava eu de plantão, à espera do Mário. Nem sempre aparecia. Quando aparecia vinha na sua motinha e eu ficava feliz da vida. Estavam garantidos "linguados longos" à porta da casa de banho, um dos poucos sítios, onde eu tinha alguma privacidade, longe dos olhos dos meus "polícias". 

 

Aos Domingos lá ia eu de novo. Mas aí sim a minha motivação, mais que encontrar o Mário (não havia telemóveis e combinávamos com um "até para a semana") era dançar. Porque ao Domingo o DJ era muito melhor e eu queria era dançar. Naquela altura acho que tinha mesmo muito jeito e sobretudo gosto em dançar. A discoteca enchia mesmo e eu vivia uma sensação de estar na moda, de ser cosmopolita, de pertencer ao grupo dos que iam à discoteca - apesar claro de eu ir de tarde em vez de à noite e dos meus fracos 13 anos. Era uma massa de gente enorme, estranha, nada homogénea. Haviam o pessoal do techno, do rock, do reggie e até o que iam por causa dos slows... Havia lugar para toda a gente e passavam músicas para agradar a todos. E de vez em quando, também havia "porrada"...

 

Quando me olhei para trás nestas imagens recordei-me daquela miúda que eu era. Vestia sempre o mesmo par de calças. Tinha poucos e aqueles eram os meus preferidos. Usava sempre a mesma t-shirt ou variava entre essa e outra, ambas muito tristes, muito pobres, de fundo branco e com uns "reclames" esquisitos. Vergonha das vergonhas... A minha t-shirt preferia tinha tão simplesmente... O logótipo da Seven Up! Vestia-me de acordo com o que os meus pais com tanto esforço me podiam dar e na verdade, apesar da pobreza de indumentária, foram tempos bastante felizes. 

 

O ponto alto das matinés eram os momentos breves, que eu tinha com o outro. Antes de "abrir a pista" dava sempre uma música do Phil Collins. In The Air Tonight. A música começava com um longo e calmo discurso com instrumental ligeiro de fundo. A primeira frase era "I can feel it coming in the air tonight, oh, Lord" mas eu só soube disto há dias quando vi o vídeo no youtube. Ou eu ouvia muito mal ou o Phill era disléxico... É que para mim nos últimos 23 anos juraria sem qualquer dúvida, com os pés juntos, mão no peito e sob solene juramento que a primeira frase era "I can feel it coming in the air tonight, hold on!" E o pior é que me fazia sentido...

 

Seguido o instrumental, há um ponto da música, forte e intenso, de viragem, dedicado à bateria. Uma batida forte, expectante, que significava tão somente que a pista ia abrir. Mas era o ponto alto e o sentimento era geral. As pessoas vibravam com aquela música, com aquele pequeno momento. O Mário já não tinha importância nenhuma porque a partir daí eu estava entregue ao outro. Ao Phill. Ao Phill Collins... 

 

Aqui fica... 

 

 

 

 

 

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publicado às 17:09



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