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A cada segundo - Capítulo 1 - Parte 3

por reporterdesaltosaltos, em 06.05.15

 

Margarida vestia uma capulana rosa vivo estampada de estrelas brancas. Desde os primeiros dias em Moçambique que se tinha habituado àquele traje. Era prático e tinha muitas utilidades. Servia de vestuário, para embrulhar crianças amarrando-as às costas mas também servia de cortina e de toalha. Em viagem utilizava-a tal como as moçambicanas, como trouxa. Vestia-a também em ocasiões especiais como casamentos ou funerais. Margarida tinha umas quantas capulanas, todas de cores muito vivas e com estampados impressionantes. A sua preferida era a amarela. Combinava com os caracóis dourados. Dava cor à vida, movimento à música e festa ao coração. E celebrações não faltavam em Maputo. Recordou-se do 7 de Abril, dia em que se comemorava o “Dia da Mulher Moçambicana” e se homenageia Josina Machel, guerreira e activista que lutou pela independência do país. Josina, também ela viveu uma intensa história de amor e casou com Samora Machel, um dos líderes da FRELIMO e futuro presidente do país mas o que a destacou foi a luta pela igualdade de direitos entre homens e mulheres e a organização de orfanatos em zonas libertadas. Josina teve um papel fundamental e era ainda hoje, mais de quarenta anos depois, uma inspiração para as mulheres. Era por causa de mulheres como ela que tantas outras mulheres espalhadas pelo mundo se dedicavam ao voluntariado, se dedicavam aos outros e às causas. Era por causa de mulheres como ela que o mundo melhorava todos os dias. Nem que fosse apenas um bocadinho. Margarida acreditava nisso. E foi com este pensamento que pegou nas malas e desatou a correr para a saída do terminal dois.  

 

O táxi parou, Vitória pagou a corrida e já nem queria recibo mas o Sr. António insistiu. Eles andam aí. Agora não perdoam. Pegou no recibo ao mesmo tempo que procurava o bilhete e o passaporte e saiu do carro num salto. Já tinha as malas no passeio, agradeceu ao Sr. António e sorriu. Pegou nas malas de viagem e entrou no aeroporto com um ar altivo. Do alto dos seus saltos altos sentia-se mais determinada e mais confiante. Era sempre assim. Entrou pela porta principal do terminal dois e viu um batalhão de gente em gritos de alegria e munida de cartazes de boas vindas. Um grupo com mais de vinte pessoas abraçadas a alguém que ela não conseguia ver. Uns choravam, outros riam mas todos cantavam alegremente qualquer coisa imperceptível. Pensou em como gostaria de ser recebida da mesma forma onde quer que chegasse e em como se sentia só naquele momento.

 

Margarida, rodeada pelos amigos não conteve as lágrimas. Estava feliz por estar de volta. Tinha cumprido parte da sua missão de vida, feito voluntariado em Moçambique, ajudado centenas de pessoas e feito muitos amigos. Sentia-se feliz e realizada mas sentia também que finalmente estava em casa. Chorava de alegria, soluçava ao abraçar os amigos, os amigos choravam e acabou tudo numa gargalhada geral. Riso de nervos. Deram-lhe um pouco de ar e afastaram-se para a ver melhor. Estava linda. A pele morena, o cabelo mais louro, mais encaracolado, assumidamente encrespado e rebelde. A capulana rosa estampada de estrelas assentava-lhe bem e os braços estavam carregados de pulseiras que imediatamente começou a distribuir pelos amigos. “Esta verde-esmeralda foi a mãe Lina que me deu quando lá cheguei. Dá sorte. É para ti. Esta amarela e laranja foram as crianças de um bairro de Maputo que me fizeram. É para atrair a alegria. É para ti. Esta azul foi o tio Inácio que me ofereceu quando eu  andava com dores de cabeça. Dá tranquilidade. Passaram-me as dores. È para ti.” E foi desnudando os braços das suas muitas pulseiras. Pulseiras de missangas e de osso, de pele, de madeira e de fio, grossas, finas, médias, de cores quentes, carinhosas. Margarida tinha essa generosidade. Cada pulseira tinha um significado, um momento da sua vida, uma parte de si, muitas recordações. Preferia partilhar o seu mundo que guardá-lo só para ela. Desejava que cada uma daquelas pulseiras presenteassem o seu dono com o dobro da felicidade que lhe tinham trazido a ela. Enquanto procurava um lenço para limpar as lágrimas, olhou para à esquerda e reparou numa mulher elegante de vestido branco a entrar pela saída. Via e sentia-a uma mulher decidida que não se importa com o que os outros pensavam. Admirava mulheres assim. Parecia uma diva de cinema mas ao mesmo tempo era muito simples. Rosto cuidado, suavemente maquilhado, óculos grandes, redondos e pretos, cabelo comprido, castanho, sedoso, apanhado. Não dava para perceber se o cabelo era liso ou ondulado. Parecia ondulado mas esticado no cabeleireiro. Reparou nos seus sapatos de saltos vertiginosos e na forma determinada como arrastava as malas. Ela já nem sabia andar de saltos quanto mais naqueles stiletos. Invejou-a e sentiu-se estranha e deselegante. Provavelmente apenas insegura por voltar à civilização. Orgulhava-se do seu traje e da sua cor mas àquela mulher invejava-lhe qualquer coisa. Não sabia explicar o quê. Viu-a a afastar-se de costas, andando como um felino, esguia, rápida e discretamente provocante. Tinha um relógio prateado e cravado de brilhantes no pulso direito. Achou curioso. Não parecia esquerdina, se é que alguém o parece. Viu-a desaparecer entre a multidão.

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Beatriz entrou em pânico, ainda não tinha chegado ao corpo e já gritava com toda a sua força. O mais alto que podia. O segurança seguiu a sua voz até ao muro, ficou imóvel e calado durante 5 segundos, sem qualquer reacção, até que correu até à recepção para chamar o 112. Beatriz aproximou-se do corpo e gravou na memória a pior imagem da sua vida. Um homem morto, com os olhos vidrados. Da cabeça jorrava sangue sem parar. Muito sangue. Uma poça. Não conseguia sequer perceber de onde, se era um, ou vários golpes. Os braços nus, cortados e ensanguentados contrastavam com a camisa branca de mangas arregaçadas e cheias de pó e manchada do verde vivo de relva bem regada. Beatriz tremia e não conseguia acreditar que tinha testemunhado um suicídio. Não conseguia parar de tremer. Não conseguia. É mesmo estar no lugar errado à hora errada. O homem vestia calças de ganga azul escura e de marca que curiosamente pareciam ilesas naquela queda. O pé direito estava praticamente virado ao contrário. Usava sapatos de vela. Apenas no pé esquerdo. O outro tinha desaparecido. Aproximou-se do corpo, devagar. Queria tomar-lhe a jugular mas aproximava-se e afastava-se com a mesma rapidez. Ganhava coragem, perdia coragem. Aproximou-se mais lentamente e a apenas milímetros de lhe tocar na pele, surpresa. O homem tossiu.

 

Ao entrar pela porta sentiu-se uma americana em solo britânico. Estava tudo ao contrário. Uma multidão a querer sair e ela a querer entrar. Atrapalhou-se, contornou malas e pessoas a caminhar furiosamente na sua direcção e só se acalmou ao vislumbrar aquele caloroso grupo a receber um amigo. Uma amiga. O grupo afastou-se e conseguiu ver uma mulher baixa e magra, de pele morena queimada pelo sol, de cabelo pelo ombro, encaracolado e de um louro espectacularmente selvagem. Gostou da sua coragem em usar um traje daqueles. Ela gostava de rosa mas nunca iria usar aquela espécie de cortina, larga e a esconder-lhe as formas. Gostava de andar sempre elegante. Vitória também apreciou as pulseiras de Margarida mas só teria coragem de usar uma de cada vez e provavelmente numa festa de Verão do outro lado do mundo. Margarida parecia profundamente feliz. Estava feliz. Dava para perceber que estava muito feliz e invejou-a naquela felicidade. Aquela doçura e aquele sorriso aberto de quem já fez as pazes com o mundo e está pronta para o amar no seu todo.

 

Beatriz estava chocada. Ele estava vivo. “Tenha calma. Já chamámos o 112. Não se mexa”. O homem tentou mexer-se e Beatriz agarrou-lhe as mãos de imediato. “Não se mexa. O que é que está a tentar fazer? Precisa de alguma coisa? O que é sente? Consegue falar?”. Ele revirou os olhos cheios de dor e as lágrimas rosadas de sangue rolaram-lhe pela cara. Alguns gemidos. Porquê? Beatriz aproximou-se para o ouvir. Porquê? Porque que é que eu não morri?...

 

O telemóvel de Vitória tocou. Já estava na fila do check-in, apenas duas pessoas à sua frente e umas dezenas atrás. Detestava atender o telefone em público sobretudo para conversas sem um objectivo claro. Não atendeu. Colocou-o no silêncio e abriu a mala para o guardar. Foi quando percebeu que tinha na mão o bilhete mas o passaporte tinha desaparecido. Começou desesperadamente a revirar a mala, a tirar tudo e a colocar as coisas em cima das malas de viagem. Repetiu a operação duas vezes e nada. Tinha-o perdido. O sangue subiu-lhe à cara em segundos e sentiu no corpo uma explosão de calor. Olhou à volta, depois para o chão até onde a vista alcançava e nada. A fila andou um metro e Vitória não sabia o que fazer. Andou também. Tentou respirar fundo e acalmar-se, quando tudo o que queria era começar a berrar e a chorar como um bebé.

 

Margarida e o grupo dirigiram-se à saída e começaram a discutir como se dividiriam pelos vários carros. Um deles aproximou-se do cinzeiro de rua para fumar uma cigarrilha e Margarida acompanhou-o. Quando olhou para o chão, mesmo junto às portas de vidro, reparou num passaporte caído. Pegou nele, abriu e leu “Vitória da Silva Félix”. “Eu conheço-a.” Virou as costas ao amigo, entrou novamente no aeroporto, colocou-se em pontas para ficar mais alta mas não conseguiu ver nada. Começou a andar rapidamente como uma serpente em plena selva e tentou visualizar o percurso de Vitória. Subiu as escadas a correr e virou à direita.

 

“Tenha calma. Não há nada que justifique acabar com a vida. Tudo se resolve. Acredite. Eu sou exemplo disso.” O homem olhou para Beatriz pela primeira vez, olhou-a nos olhos. Profundamente. Sentiu vergonha. Nojo de si. Pena. Era um coitado. Olhou para o rio. Eu devia ter morrido. “Como é que não morri? Porque é que eu não morri? Não sinto as pernas. Será que vou ficar paraplégico? É assim que Tu me vais castigar?”

 

Vitória sentiu uma mão a tocar-lhe no ombro. Margarida completamente ofegante mostrou-lhe o passaporte. “Acho que é seu. Vitória, certo?” Vitória já só sentia o nó da garganta. Aquele nó de quem precisa chorar. O sorriso carinhoso e alegre de Margarida fizeram-na perder o controlo.   Começou a chorar. Margarida abraçou-a. “Calma amiga. É só um passaporte.” Sem vergonha, chorou e soluçou durante dois ou três minutos. Margarida, carinhosa, abraçou-a, beijou-a na cara, limpou-lhe as lágrimas e sorriu-lhe. Vitória sentiu-lhe o hálito fresco. Desviou o olhar de vergonha. “Não há problema. Acontece amiga. Há seis meses aconteceu-me o mesmo. Sai de Lisboa a chorar.” Vitória recompôs-se. Aquela mulher compreendia-a. Não via mal, nem a desconsiderava só porque ela chorava. Libertou aquela fraqueza pela primeira vez. Deixou de a assustar. Margarida apertou as mãos de Vitória, piscou-lhe o olho e desejou-lhe boa sorte.

 

Choramingava sem fim. “Eu quero morrer. Eu quero morrer. Eu quero morrer.” Beatriz sentiu que estar naquele sítio àquela hora não era um acaso. “Não há coincidências.” Estava ali para o salvar. “Como é que se chama?” Fred. Ele chamava-se Fred. “Vai tudo correr bem.” Ele chorava ainda mais. “Não, não vai! Não vai! Nada mais pode correr bem na minha vida. Tu não sabes a minha história.” Ela queria salvá-lo. Fez-lhe uma festa na cara. Então conta-me a tua história…

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publicado às 18:36



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