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George Washignton disse

por reporterdesaltosaltos, em 13.04.11

Andei num colégio privado entre a 1.ª e a 4.ª classe. Não vou dizer o nome. Era uma escola "à antiga", muito rígida e que praticava o eficaz sistema das reguadas - que só não funcionava comigo. De manhã, cantávamos o hino com a mão direita sobre o peito e quando a directora da escola aparecia, quase morríamos de medo. Algumas miudas ficaram de tal forma traumatizadas que desenvolveram o reflexo condicionado de fazer xixi pelas pernas abaixo! Eu, nem por isso. Em compensação, a directora sentiu-se no direito de me atribuir uma companheira para os 4 anos de instrução primária. A menina "régua". E gostava muito de mim...

 

Poderia dizer que foram tempos horríveis mas de facto não foram. Eu levava muita reguada por mau comportamento. Falava alto demais (ainda hoje falo) e com as mãos. Gesticulava, acertava em alguém, alguém chorava, eu levava. Era o normal. Assumi o papel de defensora dos desgraçadinhos no 1.º dia de aulas. Entrei pelos portões, sozinha. Não queria que os meus pais me levassem à aula. Eu já era muito independente! Avancei pelo corredor, os miúdos choravam desalmados e eu achei que eram todos estúpidos! Porque é que estavam tristes? Iam aprender coisas novas - algo que não aconteceu durante algum tempo porque o meu avô Jacob já me tinha ensinado a escrever e a fazer contas...

 

Sentei-me no degrau da sala e pouco depois um miúdo da 4.º classe (um bully) empurra um miúdo da "pré". O pequenino caiu, desatou a chorar, eu fui direita ao grande e esmurrei-o ali mesmo, em frente à escola toda. A surpresa foi tal que numa questão de segundos ficou tudo em silêncio, completamente suspenso e em suspense. Até que ganhei o meu primeiro puxão de uma contina que me agarrou pelo colarinho da bata (azul com o emblema da escola e bandeira de Portugal). Fiquei de castigo antes sequer de começar a aula. E a tal contina (acho que era Anabela) difamou-me à directora - "Esta é fresca!" - mesmo depois de eu expor (leia-se gritar) os meus argumentos! O bom é que todos ficaram com medo de mim, principalmente a 4.ª classe. Quer dizer, eu prefiro dizer que todos me ficaram com respeito.

 

 

 

A partir deste episódio, os "desgraçadinhos", mais pequeninos, caixas de óculos e por ai a fora todos me queriam nas suas graças. Era uma espécie de nobre chefe da máfia. O meu pai ia buscar-me para almoçar em casa e quando regressava (sempre atrasada) quase sempre havia um desgraçadinho que tinha sido sovado. Durante muito tempo até a minha prima mais nova foi vítima de bullying. E lá ia eu ajustar contas. Depois a directora ajustava contas comigo. A "régua" era quase inseparável de mim. Um dia levei 25 reguadas em cada mão. Ardia horas depois! Mas cheguei a casa e não disse nada. Nunca disse nada. Porque todas foram merecidas e como era boa aluna, nas reuniões de escola a professora elogiava-me e os meus pais ficavam felizes da vida. Aí eu perdoava aqueles "injustos" calos nas mãos.

 

Verdade seja "escrita" foram tempos fantásticos e não trocaria aquela escola por nenhuma outra do mundo! Ensinou-se algo muito mais importante que activar a circulação das mãos com regularidade. Ensinou-se a perseguir metas e a dar sempre o meu melhor. "Se achas que consegues melhor, não tentes, FAZ!" Ensinou-me a exigir o melhor de mim! Mais importante, ensinou-se a ter disciplina. É algo de que me orgulho bastante. Sou uma pessoa bastante disciplinada, sei que o trabalho e o esforço são recompensados. A maioria dos miúdos que saíram daquele colégio tiveram uma elevada taxa de sucesso escolar e de carreira. Este colégio foi uma referência durante décadas! Ensinaram-me que a disciplina é o preço mínimo a pagar pela excelência.

 

Deixo uma frase de um grande americano a pensar no meu pequeno Portugal que já provou não ter disciplina... George Washignton disse "A disciplina é a alma de um exército; torna grandes os pequenos contingentes, proporciona êxito aos fracos, e estima toda a gente."

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publicado às 21:57



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