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Todos temos um passado

por reporterdesaltosaltos, em 19.09.10

Quase um mês depois do último post… O que é que andei a fazer? Bem, quase um mês de férias (pela primeira vez na minha vida), algumas idas à praia, muito mais calor do que previa, muito menos festas do que esperava. Foi mesmo para descansar e fez-me muito bem! Passaram-se alguns acontecimentos interessantes, outros inesperados, uns felizes, outros nem por isso mas perfeitamente superáveis. Facto é que o tempo escassa e escrever que é bom foi adiado constantemente. Facto é também que eu tenho um blog porque gosto de escrever. Mas é quando quero. Não gosto de o fazer por obrigação. Agora sinto-me cheia de vontade de voltar a contar histórias. Bem vindos à “reentré”.

 

Há poucos meses ia a caminhar pelas ruas das Amoreiras quando me cruzei com uma cara conhecida. Estava a uns 30 metros e pensei “Esta cara não me é estranha”. A uns 15 metros “De onde é que eu conheço esta cara?”. A 5 metros ela diz “Olá Vera!”. Eu parei a um metro e ripostei “Olá?!?!”. Ela não perdoou. “Não acredito que não te lembras de mim! Eu estou igual! E tu também! Fomos da mesma escola em 19…” Lembrei-me. Era um patinho feio que todos gozavam por ter cara de bolacha.

 

Um dia gozaram-na de tal forma que eu empurrei o “gozão” (duas vezes maior que eu) pela escadaria abaixo e partiu um dente. Eu ganhei estatuto e ela liberdade. Nunca mais a gozaram. Claro está que eu era uma rebelde. Nem lhe aceitei um obrigado. Virei-lhe as costas. Mas a rapariga pensou que eu era o anjo da guarda e passava a vida a tentar agradecer-me. Eu que era mais do género James Dean no feminino, ignorava. No ano seguinte mudei de escola e nunca mais a vi. 

 

Passados tantos anos, não só ela me reconhece, como eu não a reconheci. Figura cuidada, elegante e discreta no vestir, maquilhagem simples, cabelo muito bem tratado, mala Louis Vuitton, sapatos Manolo. Morri de inveja! Dos sapatos claro! Conversámos uns dois minutos, convidou-me para café no Amoreiras e lá fomos nós – parecíamos amicíssimas de longa data!

 

Falámos dos tempos de escola e do que tinha acontecido a quem. O normal e previsível. Os rapazes bonitos tiveram excesso de confiança, desleixaram-se, ficaram gordos e feios. As miúdas mais giras e populares casaram cedo, tiveram um monte de filhos e perderam a beleza. Os feios já tinham atingido o “fundo” naquele tempo, por isso, melhoraram bastante. Os que fumavam charros tinham morrido de overdose ou andavam a arrumar carros. Os estudiosos tinham carreiras, os medianos tinham emprego e preguiçosos estavam no desemprego ou a entregar pizas. Os vândalos estavam presos ou prestes a voltar à prisão. Os gordos emagreceram. Os magros engordaram. Etc… O que se vê nos filmes americanos mas que acontece mesmo na realidade.

 

Resumimos os nossos percursos gerais de vida e finalmente agradeceu-me por aquele episódio de há séculos. Já nem me lembrava! Aceitei o agradecimento. Terei deixado de ser rebelde??? Any way…

 

Qual não é o meu espanto quando começa a contar-me algo mais íntimo“Tive um percurso muito acidentado. A minha adolescência foi complicada. Mudei de escola várias vezes, tive muitos problemas familiares, alcoolismo e traição. Tivemos falta de dinheiro. Tivemos falta de tudo. Passei fome e vergonha. Numa altura de grande desespero, lembro-me de ter chorado uma noite inteira a jurar a mim mesma que nunca mais ia passar fome! Quis dar uma volta à minha vida, melhorá-la. Mas fiz pior. Tinha 18 anos. Nunca contei isto a ninguém. Nunca tive coragem. Mas quero contar-te…”

 

Eu que faço o drama e entrego o Óscar pensei “Oh meu Deus! Queres ver que ela é daquelas que no dia em que se passa mata pessoas?” e disse-lhe “Não precisas de me contar nada.” Ela insistiu. “Nunca mais te vi mas sempre achei que serias a única pessoa que ia compreender a minha história. Preciso de contar a alguém. Sempre achei que eras a pessoa certa.” Desmontou-me… “Bem, então se queres mesmo, conta-me tudo!”

 

 

Ela contou. “Estava desesperada. Tinha 18 anos. Não tinha futuro. Passava fome quase todos os dias. Estava pele e osso. Vi um anúncio no jornal, respondi e foi a um “casting”. Corou. “Era um apartamento de luxo, com acompanhantes de luxo. Ali na zona de Santos. Quando subi as escadas, duvidei, hesitei, mas fui subindo como se alguém me empurrasse. Uma trintona morena abriu a porta. Havia um espelho enorme logo na entrada mas na verdade não era um espelho. Era o vidro através do qual as acompanhantes viam os clientes pela primeira vez. Assim garantiam que não atendiam ninguém conhecido.”

 

 

Eu fiquei de queixo no chão mas ela já ia lançada… “Eu tremia da cabeça aos pés. As outras raparigas receberam-me como se fosse uma delas. Deram-me as boas vindas e ainda nem tinha conhecido o patrão. Ele entrevistou-me, explicou o negócio, as percentagens e as obrigações. Cada uma tinha de comprar os seus preservativos e entre as quatro paredes (cada uma) decidia os seus limites. Os clientes pagavam à entrada. Nós recebíamos 50%. Contratou-me na hora, mesmo sem experiência porque os clientes adoravam estreantes.”

 

A partir desta altura já não consegui dizer duas palavras seguidas. Ela falava depressa como se estivesse a expulsar um fantasma. “As outras receberam-me na sala. Contaram-me como tudo funcionava e que o patrão era bom para elas. Era mesmo só patrão e era justo no negócio. Disseram-me para escolher um nome. Escolhi Cláudia. Assim noutras circunstâncias, se encontrasse um cliente e me reconhecesse, podia dizer que o meu nome era xxxxxxx e que estava a confundir-me com alguém. Algumas delas eram casadas. Tinha vida dupla. Eu estava no sofá a ver televisão com elas e passei o tempo a desejar que ninguém tocasse à campainha. Que o dia acabasse depressa! Mas tocaram. O primeiro cliente era enorme, gordo, todo transpirado. Olhou-me e eu só pensava: Não me escolhas! Por favor! Não me escolhas! Felizmente escolheu outra. Ai percebi logo que a minha “carreira” ia ser breve. E foi”.

 

Bolas mas estás a escrever uma história ou a contá-la? Avança caramba! Ela avançou. “Entretanto tocou um novo cliente. Eu estava tão desorientada que estava a pintar os olhos e quando fui para a sala só levava um olho pintado. Ele escolheu-me. Era novinho. Talvez uns 23 anos. Era americano, saxofonista e tinha vindo dar um espectáculo na Gulbenkian. Fomos para o quarto onde havia apenas uma marquesa para “massagens”. Tomei coragem e avancei como se soubesse perfeitamente o que estava a fazer. Ele era amoroso. Estava nervoso. Também devia ser a primeira vez. Foi como estar com alguém de quem se gosta pela primeira vez. Não sabemos muito bem o que fazer... Foi rápido e ele era carinhoso. Não achei nojento como as outras diziam mas acho que tive sorte. Entretanto, ele despediu-se, disse que ia voltar para estar comigo e que tinha sido como estar com uma namorada… Quando ia a sair perguntei-lhe o nome. James. Jaime. O nome do meu avô. Saiu e fechou a porta”.

 

Mas que raio tem o teu avô a ver com a história? Ela respondeu. “Tudo. Acreditas em coincidências? Eu não. Saí da sala, tomei duche, recebi 100 euros, fiz um sorriso forçado e disse que estava na minha hora. Saí quase a correr e fui apanhar o barco. Nunca mais lá voltei. Acho que elas sabiam que eu não ia voltar… Matou-me a fome durante quase duas semanas mas também me matou durante uns tempos. Tentei fingir que aquele dia não tinha acontecido. Que fazia parte de uma fantasia estranha. Que estava no passado. Nunca contei a ninguém porque sempre tive medo mas sempre quis desabafar com alguém e enterrar de vez este pesadelo. Nessas alturas, não faço a menor ideia porquê, sempre me lembrei de ti. Pronto agora já sabes. Fui acompanhante de luxo por um dia!”

 

Bem, eu também não sei porque se lembrava ela de mim nestas alturas. O que sei é que depois do choque normal e inicial ao ouvir uma história destas só fui capaz de lhe dizer o que penso sobre os erros do passado. “Todos cometemos erros. Ninguém está livre deles. Ninguém tem um passado perfeito e imaculado. Todos temos as nossas histórias e os nossos arrependimentos mas não podemos alterar o passado. O que podemos fazer é esquecer e seguir em frente. Porque o passado é só isso mesmo. Passado.”

 

Aquele pequeno discurso saiu-me bem. Senti como se lhe estivesse a absolver os pecados. Senti-a aliviada. Contou-me o final (actualidade) da história. “A partir daí batalhei todos os dias por uma vida melhor mas honestamente. Um dia conheci um homem espectacular. Casei com ele e somos muito felizes mas ele não sabe do meu segredo. Acho que não merece sofrer pelo meu erro. Não o quero magoar. É um homem bom e generoso. Muito rico. E sem querer cumpri a minha promessa. Nunca mais passei fome…”

 

Que atire a primeira pedra quem não tem passado

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publicado às 00:40



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