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Foi no dia 18 de Março de 1900 e qualquer coisa

por reporterdesaltosaltos, em 04.08.10

Como todas as pessoas passo uma boa parte da minha vida a ouvir e a contar histórias. Durante anos a fio, insistentemente contaram-me uma. Os pormenores vão ficando perdidos mas a essência desta história nem o tempo me consegue fazer esquecer.

 

É a história de uma menina beirã. Corria o ano de 1900 e qualquer coisa (a verdade é que é impossível precisar) e nasceu em Idanha-a-Nova, uma menina de olhos doces. Acho que tinha 3 irmãs mais velhas e um irmão mais novo. A família beirã era estupidamente pobre e para não deixar as filhas morrer de fome, enviava-as para a capital, para serem criadas de servir. No início do século XX era bastante comum.

 

Amélia dos olhos doces, que nem a música do Carlos Mendes, chegou a Lisboa com sete anos. Veio servir na casa dos “senhores”. E foi o que fez durante muitos anos. Serviu nas melhores casas da capital mas o sonho dela era ser corista. Era o Parque Mayer. Eram o glamour e as luzes do palco. E quem a conheceu percebe bem porquê. Amélia era artista. Sempre pronta a sorrir e a fazer rir, mesmo quando só tinha razões para chorar.

 

Amélia cresceu e apaixonou-se por um tal de Claudino (como os bolos do Capote). Casou-se com o canalha, quer dizer “Claudino” e depressa descobriu, tal como a própria dizia que “o amor é uma pomada”. Ou seja, colocas na pele e desaparece em segundos… O tal canalha, quer dizer “Claudino” fez-lhe a vida negra (e o corpo). Contra as convenções salazaristas, separou-se. Preferiu ser uma mulher “perdida” a espancada.

 

Mais uma vez, abandonada a si, Amélia começou de novo. Não recusava trabalho. Servia ao dia, apanhava flores e limões e ia vender nos mercados. Matava a fome como podia. Também namorava e há quem diga que bastante. Chegou a namorar o famoso pugilista Santa Camarão que tinha 2,02m! A Amélia até tinha medo dele. Ele foi apaixonado por ela. Ofereceu-lhe um anel de diamantes. Mas a Amélia dos olhos doces precisava de matar a fome e penhorou o anel!

 

 

 

Uns anos mais tarde foi ela quem se apaixonou. Outra sacana. Um sacana de Olhão que a enganou (dizem que tinha várias mulheres) e lhe fez um filho. Era um boémio, vestia bem. Usava sempre fato e chapéu. Não conduzia, tinha motorista. Também tinha dinheiro. Dizem que muito. Mas que foi perdendo ao jogo. Tornou-se num afamado vigarista da capital. Uma espécie de “Alves dos Reis”. Mas José não fazia dinheiro. Só gastava… O dos outros. Viajava entre Olhão e a capital e Amélia desconfiou…

 

Ela desconfiou e despachou-o mas há também quem diga que foi o seu grande amor. Mulher de armas obrigou-o a perfilhar a criança. E baptizou-a. Uma amiga foi a madrinha do filho. Não tinha padrinho. Escolheu o Santo António. O (também) José foi apadrinhado por um santo. Amélia, mãe aos quase 40 anos, continuou a lutar e a fazer tudo para que ao filho nada faltasse. Ela passava fome. Ele nunca.

 

Uns anos mais tarde finalmente conheceu um santo. O santo Jacob. Mas Amélia já não acreditava nos homens. Todos lhe tinham falhado. Todos a tinham abandonado. Todos a tinham maltratado. Só o filho era dela. Mas Jacob era bom, sem maldade. Estava apaixonado, insistiu e pediu-a em casamento. Ela que já teria cerca de 60 anos, aceitou. Impôs uma única condição, uma espécie de acordo pré-nupcial. Ficou  acordado que toda a herança de Jacob tivesse um único herdeiro, o filho. Assim foi. Uma vez mais protegeu o seu “rebento”. Nunca a ela. Sempre o filho. 

 

Apesar dos abandonos e desgostos, tristezas e infortúnios, Amélia nunca baixou os braços e nunca deixou de sorrir. Lutou sempre sozinha e dizia muitas vezes com voz melodramática e em jeito de “Parque Mayer” que uma “árvore morre de pé”. E foi assim que ela morreu. Com mais de cem anos. Forte. Mais senhora que alguma vez foi. Fui eu quem lhe fechou os olhos. A Amélia era a minha avó.

 

Nunca saberemos com que idade morreu. Nasceu a 18 de Março de 1900 e qualquer coisa. Era frequente as crianças serem registadas anos após o nascimento. Ela foi registada já na capital e como se tivesse acabado de nascer mas já com cerca de sete anos. Nunca saberemos ao certo…

 

O que todos sabemos é a lição de vida que ela nos deu. A sua força sem fim. A sua alegria. Diária. Ela ria alto. Como eu. Quase todos os dias me lembro do exemplo que ela é para mim. E verdade seja dita, as pessoas estão vivas sempre que nos lembramos delas...

 

Eu lembro-me dela todos os dias…

 

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publicado às 15:13



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