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Eles são “Muffins” e nós “Cupcakes”

por reporterdesaltosaltos, em 19.04.10

Hoje falo-vos de muffins e de cupcakes. Os muffins são todos iguais. Eu não gosto de generalizar mas é verdade. A base é sempre a mesma, embora muitas vezes tenham ingredientes e sabores completamente diferentes. São todos feitos de massa bruta, daquela que se estranha mas raramente se entranha. São esquisitos. São todos diferentes mas são todos iguais. Têm muitas qualidades mas também muitos defeitos. E escolher torna-se muito difícil…

 

Os cupcakes são muito mais complicados mas também muito mais refinados. Neste caso são todos diferentes. Mesmo muito diferentes, embora exista um ingrediente de fundo que está sempre em todos. Uma espécie de “linha emocional” comum. Uma certa fragilidade, um feminismo utópico que muitas vezes me irrita. Não só com os cupcakes em geral mas também com o cupcake que está dentro de mim.

 

Nós temos massas diferentes, coberturas diferentes, também com sabores diferentes. Temos um leque de cores variado com enfeites ainda mais variados. Todas com necessidades diferentes mas uma comum. A de ter um muffin. O género depende do gosto. O que queremos mesmo é ter um muffin ao nosso lado e que ele corresponda ao nosso ideal. Raramente acontece...

 

 

Eu já tive muitos muffins mas tive três mesmo “à séria”. O meu primeiro muffin, o L, era cinco estrelas e o meu preferido. Era feito de chocolate de leite com recheio de chocolate branco derretido. Sempre muito muito muito “quente” e muito muito  derretido. Era um muffin com dois smarties (decorativos) verdes, enormes e lindos. Eu era um cupcake acabado de sair do forno e ele era tão derretido que me aborreceu. Não me deixava respirar. A distância aumentou com a discrepância de objectivos. Ele queria o que tinha. Eu queria o mundo inteiro! Fui má. Fui muito má. Fiz o que pude para ele acabar com o nosso sofrimento mas principalmente com o meu - fui um cupcake muito cobarde. Tanto insisti que finalmente consegui. Foi um alívio para mim e um sofrimento para ele mas o melhor para os dois.

 

Largos meses depois conheci o meu segundo muffin, o R. Era um muffin de chocolate de leite, recheado de chocolate de leite e se tivesse cobertura, de certeza que também era de chocolate de leite. Era muito “morno” e acho sempre soubemos que não íamos chegar a lado nenhum. Também ele só queria o que tinha. Também eu continuava a querer o mundo inteiro! Eu pressionei para chegarmos ao fim e mais uma vez consegui. Fui má outra vez.

 

O meu terceiro muffin, o R II, foi o pior de todos. Era um muffin de “mármore” e cheguei mesmo a pensar que era um muffin “cor-de-rosa” por dentro. Sim, desses… Mas hoje acho que não, era só esquisito e bastante problemático. Queria que eu fosse um cupcake “Marta Stewart”. Uma senhora perfeita, tipo Brie (das Mulheres de Casa Desesperadas) perfeita por fora mas completamente insatisfeita por dentro. Jamais conseguiria sê-lo até porque nesta fase eu vivia intensamente a minha vida de “cupcake repórter”. Ia trabalhar e nem me lembrava que ele existia – batam no ceguinho quando o post terminar, boa?

 

Um dia ele decidiu fazer algo que eu o tinha especificamente proibido de fazer. Apresentou-me “por acidente” à mãe “muffin”. Foi o pânico total. Só tinha conhecido a senhora “muffin” há 2 minutos e só pensava “Acabou!”. Acho que acabou mesmo nesse dia pelo menos para mim. Nem vou contar como acabámos. Fiz muito pior que o que o pior muffin do mundo poderia ter feito. Não me orgulho mesmo nada mas também já não posso voltar a trás. Se tivéssemos ficado juntos, hoje seria profundamente infeliz e ele ainda mais.

 

O pior de tudo é que depois da minha passagem pela vida destes muffins, a vida deles nunca mais foi a mesma. Não é presunção. Sei bem o sofrimento que lhes causei. Fui cruel, desumana e impiedosa. Nem culpa senti. Na verdade não senti nada senão alívio. Segui a minha vida como se nada fosse. Um dia (isto deve fazer parte do crescimento) somei a minha maldade e o saldo foi muito negativo. Tão negativo que durante seis anos decidi nunca mais ter um muffin “à séria”. Não quis voltar a ser má.

 

Entretanto, tive vários muffins temporários. Chocolate branco, preto, com recheio, sem recheio, com e sem cobertura. Alguns com frutos silvestres ou frutos secos, outros com enfeites variados e muitos mas mesmo muitos, completamente ocos ou estragados por dentro. Esta opção também se revelou um problema. Quando há hipótese de escolha entre vários muffins e nenhum parece certo, é porque nenhum o é. Ainda assim foram tempos diferentes e bastante divertidos.

 

 

Mas o objectivo de hoje é lamentar. Lamento a todas as cupcakes que me precederam nos meus três muffins pelos danos que lhes causei. Tratar as feridas dos outros não é fácil. Ninguém quer muffins traumatizados e nem sequer em recuperação. Já encontrei alguns assim e desisti logo. Não consigo ser “enfermeira” contrariada e muito menos em causa própria. Não tenho tolerância e muito menos paciência. Não sei “lamber” as feridas dos outros. Por isso, como sei o trabalho que vos dei e vocês foram resistentes, parabéns pela persistência e obrigada por serem fantásticos seres humanos.

 

Mas continuo a lamentar e agora com maior gravidade. Digo muitas vezes que as “desculpas não se pedem, evitam-se” mas são só mesmo palavras porque a moral eu não a tenho. A estes três muffins desculpas não bastam. Porque não há desculpa possível. Pedir perdão não chegará nunca. Porque não tem perdão. Não há palavras ditas e muito menos escritas que sejam algum dia suficientes para apagar os meus actos de maldade. Só me resta lamentar eternamente, desejando que alguém muito melhor que eu consiga “curar” os “meus” muffins. E que estes façam dos seus cupcakes, cupcakes muitos felizes.

 

L, R e R II, lamento profundamente...

 

Se não fizesse isto publicamente (quer dizer virtualmente) acho que podia carregar no meu “move on” até ao fim dos meus dias mas sem qualquer efeito. Publicamente assumo que fui muito má. Ninguém conseguirá imaginar o quanto. Fui uma péssima pessoa mas agora quero ser boa. Também ninguém conseguirá imaginar o quanto. Todos os dias tento dar o meu melhor. Tento recuperar o ser humano que tenho a certeza que existe dentro de mim. Nuns dias consigo. Noutros nem por isso. Mas vou continuar a tentar...

 

Detesto admissões de culpa mas é a única forma de expulsar os fantasmas. Deixo neste post toda a minha culpa. Com o passado enterrado posso mesmo seguir em  frente...

 

Meu Deus! Isto não pode ser só tpm. Tem de ser alguma forma de descompensação hormonal bem mais grave, não? Ou será que estou mesmo a recuperar?

 

E sim Carina, algumas pessoas têm mesmo a sua missão nas nossas vidas! 

 

 ;-))

 

 

Ufa! Acho que estou curada!!

 

 

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publicado às 22:57



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