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Rosa Tomate

por reporterdesaltosaltos, em 10.04.10

As memórias são o que de melhor levamos da vida. Todos nós temos memórias. Alguns de nós e tão simplesmente vivemos de memórias. Algumas pessoas acabaram o seu tempo entre nós e passaram a fazer parte das nossas memórias. E alguns de nós, pelo menos uma vez na vida fomos produtores de memórias. Prefiro acreditar que serão sempre boas.

 

Eu fui uma sortuda nesta coisa das memórias. Tive uma infância espectacular e desde aí sempre fui uma miúda atrevida. Traquina. Daquelas que faziam estragos e adoravam! Era terrível. Sempre morei com os meus pais e com os meus avós mas foram principalmente estes que mais tempo passaram comigo. Os meus pais trabalhavam e até começar a 1.ª classe estive sempre com eles. A minha avó Amélia e o meu avó Jacob. Foi ele quem me ensinou a escrever e a decorar tabuadas. Quando comecei na 1.ª classe já ia bastante adiantada e achava tudo um aborrecimento. Não obstante era uma excelente aluna e também uma excelente bailarina - uns longos anos de ballet completamente perdidos na minha postura... Se a professora Auzendinha soubesse...

 

Brincava nas quintas onde o meu avô era caseiro e dificilmente os miúdos de hoje vão saber o que isso é. O que é comer fruta acabada de apanhar ainda sentada de baixo da árvore. O que é dar de comida aos animais ou simplesmente plantar ou apanhar favas ou salsa. Ou tomate. Esta é a minha memória preferida. Todos os finais de verão ia ajudar o meu avó a apanhar tomate. Apanhávamos vários quilos, pelávamos, depois o meu avô colocava-os dentro de um lençol branco e pendurava no tecto do telheiro. Ficava um ou dois dias a escorrer líquido e o lençol ficava assim para o “rosa tomate”. Adorava – e ainda adoro - aquela cor. Porque era uma cor que tinha sabor e um pouco de todos nós. Tudo artesanal. A minha avó e a minha mãe depois coziam o tomate e fazíamos doce que dava para a família toda durante um ano. A receita é que não ficou na memória. Os meus avós não contavam. A minha mãe ainda tentou (e até era óptimo) mas aquele sabor morreu com eles. Rosa Tomate é uma cor que faz parte de mim. Das minhas memórias. Tal como os meus avós. Estão ligados entre si e não podem nunca separar-se. Não é só cor nem o sabor. É também o calor...

 

O calor do verão - mas daquele tempo em que o verão era mesmo a sério. Era um calor abafado. Tão abafado que à noite as famílias vinham para a rua sentar-se naquelas cadeiras de tecido às riscas ou mesmo nos degraus da porta de casa. Isso sim eram verões a sério.! Eu passava as tardes (em plena força do calor) a brincar à sombra com as minhas amigas de infância. As “banhistas” (a Sofia e a Rute) como a minha avó as chamava. As miúdas que tinham “casa de praia” na Caparica. E era o máximo!

 

 

Brincávamos de manhã à noite na rua. Andávamos de bicicleta (e portanto a esfolar joelhos) saltávamos ao elástico (mais não fossem elásticos de várias peças de roupa, uns atados aos outros) jogávamos ao limão e à sirumba (tipo polícia e ladrão e só precisávamos de uma pedra para fazer desenhos no chão) e nunca nos cansávamos. Á noite continuávamos a brincar nos quintais umas das outras. Que saudades... A Sofia e a Rute continuam na minha vida. Alguns amigos perdem-se no tempo, nas novas vidas ou por momentos e isso também nos aconteceu. Mas na verdade (e ultimamente mais ainda) elas fazem parte da minha vida. Não só nas memórias. Na realidade elas fazem mesmo parte de mim.

 

Quando chegava o fim do verão, o tempo esfriava e os cheiros alteravam-se. Eu e as minhas amigas ficávamos mal humoradas. Sobretudo elas que tinham de voltar para Belas. Afinal eu era a sortuda que morava na Caparica o ano todo... Acho que sempre detestei despedidas por causa disto. Nunca gostei de me despedir delas. Significava um ano sem brincar com as minhas grandes companheiras de aventuras. Um ano inteiro!

 

Mas nem tudo era mau. O Outono trazia outros cheiros, o regresso à escola e os livros novos. Que cheirinho esse! E sucessivamente os anos foram passando. Adolescência. Passando. Idade adulta - só mesmo idade, enfim. Passando. Hoje pertenço à geração que acabou de chegar os “trinta”. Tenho bastantes memórias no passado (e boas) mas também muitas ainda por criar. Mas o que eu gosto mesmo é de criar as das outras pessoas...

 

E chego finalmente aqui, à razão pela qual escrevo este post. A minha sobrinha Nádia. Tem 13 anos e nunca poderá viver os meus momentos mas tal como alguém ajudou a criar as minhas memórias, também eu me sinto muito bem no papel de fazedora das suas. E também dos seus sonhos. Há uns dias atrás fiz exactamente isso. Fui com ela ver “Tokio Hotel”. Ela adorou, eu adorei e acho que aquelas horas juntas - em que eu fui a mais “miúda” - vão ficar na memória. Tanto na minha, como na dela. E ainda bem. Porque afinal as memórias são mesmo o que de melhor levamos da vida...

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publicado às 22:32



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