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Vestida de Preto

por reporterdesaltosaltos, em 09.11.12

Há muito tempo eu estive de luto. Agora já não sei bem quanto mas tenho ideia que foram cerca de quatro meses. Não morreu ninguém não. Mas foi como se tivesse morrido. É preciso fazer luto no final das relações. Acho que é mais uma coisa de mulher mas conheço homens que também o fazem, ainda que de forma muito diferente. Eu fiz o meu luto. Precisava de encerrar aquele capítulo com a certeza que o encerra definitivamente sem iniciar outro pelo meio. Para evitar a lei das compensações e não baralhar as coisas…

 

O fim de uma relação nunca é o fim do mundo. Mas acabe bem, acabe mal, com concordância das partes, ou não, não interessa nada. É sempre preciso um período de luto. Precisamos de nos reestruturar, colocar as ideias no lugar e principalmente sofrer aquela perda. O primeiro dia é mau. Muito mau. Só queremos que ele acabe. Sentir anestesia. Deitar a cabeça na almofada e dormir. Esperar que no dia seguinte nos sintamos melhor. Não acontece. O dia a seguir é igual. Às vezes pior. Os outros a seguir também. Acho que até fazer um mês, temos sempre a esperança que cada dia passe depressa e melhore. Lentamente vivemos um dia de cada vez.

 

No início do segundo mês ainda nos está na cabeça. Custa respirar. Custa ganhar fôlego para explicar aos outros. Repetir a história. Aquele nome de tanto repetido passa a ter outro peso. Não o queremos ouvir. Nem o nome, nem sequer palavras começadas pela mesma letra! O nome passa a soar a um alarme como que para nos lembrar constantemente do que com tanto desejo queremos esquecer. Alguém na rua diz aquele nome, uma reportagem na tv com aquele nome, uma história que nos contam com o raio daquele nome! Aquele nome, aquele nome, aquele nome…

 

 

Não é só o nome. É a sms que entra e nos alerta. Não porque queremos que seja ele porque não queremos mesmo. Mas somos o cão de Pavlov. Associamos. Lembramos-nos. Aquilo lembra-nos. Odiamos todas as sms! E todos os carros! Os daquela marca, os daquela cor, os de marca parecida, os de cor parecida. Os carros passam a perseguir-nos na estrada, no estacionamento, nos semáforos, do outro lado da estrada, do nosso lado da estrada. Olhamos para a frente e ele está lá. Olhamos pelo retrovisor e ele está lá.  Qualquer vislumbre da cor xxxxxx nos corta a respiração. Qualquer homem/mulher com figura parecida. De costas, de perfil, está lá. Trememos com a possibilidade de confronto. Custa respirar fundo. Custa respirar até ao fim dos pulmões!  

 

Mas aos poucos o luto chega ao fim. Quando já chorámos tudo. Quando as feridas sararam. Sem sequer nos apercebermos, um dia acordamos e pela primeira vez ele deixou de lá estar. Desapareceu. Completamente. E quando também pela primeira vez nos apercebemos disso – que já não nos lembramos - tudo muda. Como naqueles dias cinzentos em que atravesso a ponte e surgem raios de luz tão fortes que atravessam as nuvens e tocam no Tejo. É como se Deus tocasse a terra e em jeito divino me dissesse “Amanhã vai estar um dia fantástico”. E está. Um dia fantástico para começar de novo…

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publicado às 21:50



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