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Como prometi num dos primeiros posts hoje conto a história de um dos piores momentos da minha vida. Ou melhor, de um dos momentos que podia ter sido um dos piores. Não foi. Sou demasiado positiva para ver sequer o lado menos positivo. É mesmo como o título. Quando o pior que nos podia acontecer é o melhor que nos podia ter acontecido… 

 

A 23 de Agosto de 1997, viajei de comboio até à zona da Mealhada para passar o sábado com uma família amiga da minha. O programa da noite era assistir a uma das provas de supercross mais famigeradas (na Poutena) do nosso humilde campeonato nacional. Não tenho grande memória da corrida em si mas nunca mais me esqueci do final daquela noite. No regresso a casa da família Correia tive um acidente que mudou a minha vida para sempre.

 

Ainda hoje não me consigo lembrar com grande clareza o como mas numa das estradas a caminho da Cúria, eu o meu querido Tó Correia, tivemos um acidente de moto. Já tinha tido alguns acidentes mas nenhum como aquele. Nunca estive tão calma. A queda parecia estar a acontecer em câmara lenta. Eu conseguia antever os movimentos que se seguiam quase com precisão. Em segundos, caímos para o lado esquerdo e senti como se estivéssemos a ser puxados pela estrada fora. Aquele momento parecia eterno. Nunca mais acabava. Lembro-me de pensar “Isto está a demorar de mais!”. E estava.

 

Quando finalmente a moto parou, levantei-me imediatamente e comecei a avaliar a situação. A roupa estava toda rasgada, não tinha a bota do lado direito, não senti qualquer dor, estava calma, mas de repente percebi que estava cheia de sangue. Nem conseguia perceber de onde vinha. Tirei o capacete. Nunca nunca nunca nunca mas nunca façam isto! Foi a minha primeira lição de motocross e não serviu de nada... Apareceram várias pessoas (o que é estranho porque eram duas da manhã) e todas queriam que me deitasse no chão. O meu tio Tó estava muito melhor que eu e só pedia desculpa… Finalmente cedi. Deitei-me no chão. Olhei para o céu e vi tudo a ficar meio enublado. Nunca estive tão calma em toda a minha vida. Pensei “Será que isto é morrer? Não é assim tão mau…”

 

Chega a ambulância e eu não queria ir. Insistia que com um bocadinho de mercúrio nas feridas ficava tudo bem e ainda podia ir à discoteca… Cheguei a uma emergência (não sei qual) e começaram a cortar-me a roupa. Eu debatia-me e dizia “Não cortem! As calças são da minha amiga Sofia! Eu tiro! A minha mãe dá uns pontinhos na roupa e fica como nova”. Lá está, Vera Lagos sempre positiva, mesmo quando só restavam trapos… Levaram-me para os HUC. Recordo-me de estar num corredor amarelo, cheia de sede e de uma enfermeira me dar um trapo com água para molhar os lábios. Estava já a desesperar quando perguntei a outra enfermeira o que tinha. Ela respondeu com mau humor “Se tiver sorte um dia volta a andar!”.  Fiquei chocada. Felizmente a enfermeira era só uma pessoa muito mal formada e devia estar com TPM.

 

Bloco de operações. 10, 9… Acordei pouco depois da operação rodeada de pessoas estranhas a perguntar mil coisas diferentes. Estava completamente baralhada e enrolada em ligaduras. A mão esquerda parecia uma luva de boxe, soro na direita, gesso até ao joelho na perna direita e tala até à nádega na esquerda. Entre as pernas tinha uma garrafa com um líquido que me parecia whisky. Era um dreno… A família do meu tio Tó também estava lá. Queriam avisar os meus pais. Eu fiz prometer que não o fariam senão na segunda-feira. Já era domingo (24 de Agosto) e os meus pais tinham planeado uma festa com cerca de 60 pessoas para o 1.º aniversário da minha sobrinha Nádia. Estava de rastos por não poder estar lá mas preferia passar por tia e madrinha desnaturada do que estragar a festa. E durante um dia eles conseguiram esconder tudo.

 

Na segunda-feira foi o choque! Principalmente para a minha mãe e para o meu pai. E eu só queria ir para casa. O meu tio desfazia-se em desculpas… Não acreditava quando eu lhe dizia que não o culpava. Que não havia culpados. Simplesmente tinha acontecido. Acreditem ou não, nunca o culpei mesmo. Jamais o culparia… Uns dias foi transportada para o Garcia de Orta. Foi uma viagem horrível. Quando cheguei e vi a minha família e amigos, desmanchei-me em lágrimas.

 

Mas o pior foi mesmo a primeira semana. Primeiro o diagnóstico “Bem neste momento é difícil perceber. Voltar a andar é muito complicado. Pode demorar muito tempo. Não podemos prever…” Depois as visitas. Em pleno Verão (tinha eu 18 anos) dezenas de amigos e família a cansarem-me todos os dias, as perguntas repetidas, as lágrimas nos olhos, o olhar de pena, o olhar de “a tua vida acabou”. Até na SIC deu uma grande reportagem sobre acidentes, paraplégicos e tetraplégicos! Tudo me queria “puxar” para a depressão. Mas eu não deixei.

 

Eu gosto de soluções, não de problemas! Solução n.º 1 e em resposta ao médico “Sr. Dr. lamento informar que eu não sou dessas! Primeiro andar de moto acabou” e ele respondeu “Pois sim. Isso é o que todos dizem quando isto lhes acontece”. Cumpri a promessa até hoje. Toma! “Segundo pode ter a certeza que nada do pior que possa prever me vai acontecer. EU garanto que não vai acontecer!” e ele dizia atrapalhado “Bem é bom que tenha esse espírito mas tem de estar preparada para tudo.” e eu ripostava “Não se preocupe. Eu resolvo isto!”. Terceira decisão “A partir de hoje estão proibidas todas as visitas, excepto da minha mãe.” Afinal mãe é mãe! E assim foi.

 

 

Eu já estava mal. Tinha de ter força para a minha luta. Não para a dos outros. Afinal eu é que estava numa cama de hospital mas também era eu quem tinha de dar força e alegria aos meus visitantes. Não devia ser o contrário? Também sempre achei que seria demasiado egoísta da minha parte “obrigar” a vida dos outros a abrandar por minha causa. O problema era meu. Eu é que tinha de o resolver. Dei o primeiro passo.

 

Cerca de duas semanas após o acidente o médico voltou à carga com o discurso pessimista. O que é que eu fiz? Uma loucura. Com a luva de boxe do lado esquerdo e o “bobby” do soro do lado direito coloquei a mesa de cabeceira ao lado da cama. Depois peguei nas pernas e coloquei-as para fora da cama. Apoiei-me na mesa de cabeceira, fiz um esforço acima de tudo o que podia parecer humano e andei até ao fim da cama. A cada passo pensava que ia cair, desmaiar, sei lá… Mas depois inspirava, endireitava as costas e pensava “raios me partam se eu não consigo!”. Lá andava mais um bocadinho. Baby steps. Quando cheguei ao fim da cama estava no limite das minhas forças! Entra uma enfermeira mesmo a tempo de me ajudar e começa a gritar “O que é que você está a fazer? Não acredito! É impossível! Você é doida!?”. Eu pensava “Eu sabia que era capaz! Eu sabia! Eu sabia! Estou safa!”. Não preciso dizer que em minha casa foi uma festa!

 

A partir daí vivi pequenas vitórias diárias. Todos os dias consegui fazer mais qualquer coisa. Abrir a mão mais um milímetro… Um milímetro quer mesmo dizer um milímetro. Algo que não era visível mas cuja diferença eu sentia no meu corpo. Estive quase sempre “drogada” e raramente sentia dores. Só me doía mesmo quando fazia o penso no joelho esquerdo - a minha mãe fala muito nisto. Era uma espécie de “lexívia” que ardia que se fartava! Tinha um esfacelo até á rótula e para retirar os tecidos mortos usavam esta bela técnica. E quando sangrava… Ui era uma festa! Explicaram-me que sangrar era sinal de os tecidos estarem vivos. Eu até ansiava pelo penso porque até sangrar era uma pequena vitória…

 

A determinada altura deram-me uns dias de férias para ir a casa. Era uma forma de me preparar para a série de operações que tinha de fazer. E assim foi. Fiz várias operações, todas processos poucos dolorosos mas muito morosos. Cada timing de recuperação era uma eternidade! Sempre que internada mantinha a regra de visitas. A minha mãe de pedra e cal. A minha tia aparecia de “penetra”. A minha cunhada foi a minha grande enfermeira, sobretudo na recuperação em casa.

 

Durante meses andei de cadeira de rodas. É inexplicável a sensação de não poder andar mas muito pior, a de já não saber fazê-lo. Valorizamos tão pouco o facto de simplesmente andarmos quando há quem nunca o tenha feito ou tenha deixado de o poder fazer. Digam lá que não são uns sortudos? Todos os dias de fisioterapia eram uma pequena luta e uma pequena vitória – a minha fisioterapeuta é hoje uma das minhas maiores amigas. A segurança vai-se recuperando e passados não tantos meses quanto era suposto, estava a dar os primeiros passos. Na fase seguinte, conheci o fascinante mundo das canadianas. Complicado! Depois a canadiana solitária. Depois as primeiras tentativas sem canadianas. Depois os primeiros passos a solo. Meios tropeços. Inseguros. Mas com a certeza de que cada dia é um dia. É mais uma vitória. Por mais pequena que seja.

 

E qual é o moral desta longa história? Bem, desde muito (mas mesmo muito) nova sempre me vi como uma vencedora. Uma pessoa forte. Muito forte. Nunca pensei ser tanto. Não sei se foi o destino. Algo que tinha de me acontecer ou que eu tinha de superar. Só sei que contra todas as expectativas, superei e superei-me. Acredito no ser humano e na sua extraordinária força de vontade.

 

Tenho várias cicatrizes. Podia ser operada e retirá-las mas não quero. Ajudam-me todos os dias a lembrar-me quem sou. Mas mais importante são uma lição de vida. Nunca desistir e relativizar sempre! Não há problemas. E eu só gosto de soluções. Porque elas existem. Mesmo quando não as vemos. Afinal de contas e se avaliarem as vossas vidas, muitas vezes, o pior que vos podia acontecer foi o melhor que vos podia ter acontecido…

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publicado às 13:53



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