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Uma Aventura no Mar

por reporterdesaltosaltos, em 27.07.12

Há uns meses inscrevi-me como voluntária no evento Tall Ships 2012. Eu que não tenho absolutamente nenhuma ligação ao mar. Quer dizer, eu adoro o mar e é o meu refúgio mas gosto muito mais dele visto de terra! Quando andava na faculdade até costumava enjoar só de atravessar o rio no cacilheiro. Enfim, eu não corresponderia ao perfil ideal para um evento do género. Mas aceitaram-me. Porquê? Ou estavam desesperados ou tinham muito boa fé. Tirei uma semana de férias. Porquê? Isso é que já não sei. Mas exposto isto, quem é que tira uma semana de férias para ser voluntária num evento de veleiros? Euzinha...

 

Espera tudo e não esperes nada era o meu lema desde as 11h da manhã de segunda-feira. E aconteceu tudo e aconteceu nada. Por onde começar? Alguns veleiros chegaram antes do tempo e quase nada estava pronto para os receber. Cerca de uma semana antes, tivemos um briefing e eu (como sempre) com a minha mania das grandezas pedi o maior veleiro e com mais louros. Calhou-me um dos menores, logo no primeiro dia, cheio de russos com dentes de ouro e particularmente mal dispostos. Eu pedi “louros” não “dentes d’ouros”. Que fique bem claro Sr. Comandante!

 

Eles queriam tudo, depois já não era nada disso, depois queriam tudo outra vez. A minha sorte foi ter sempre testemunhas! A nossa “relação” azedou por causa da lavandaria e melhorou por causa dos pastéis de Belém ainda no mesmo dia. Foi uma relação completamente bipolar! O inglês deles não tem qualquer explicação e falavam russo muito de va ga ri nho para ver se eu percebia. Eu dizia em português - também devagarinho - eu não fa lo ru sso! A minha sorte foram os tripulantes mais novos que lá iam traduzindo alguma coisa. Depois descobrimos que variando numa só frase entre palavras em russo (afinal até temos palavras semelhantes), alemão, italiano, inglês e até português dava para nos entendermos. Ainda me arranjaram um namorado, o Pacha que tinha uns 15 anos! E o Sergei convidou-me para jantar. Só os dois, hum?... Será que ele ia pagar com um dente? Ou com o Svezda?

 

Horários. Eu combinava uma hora e eles diziam que sim. Juravam a pés juntos que sim! Á hora combinada eu esperava. Esperava. Esperava. Lá ia atrás deles. Já não estavam no veleiro. Fonix! Fonix! Mas onde raio é que eles andam? Bem, eles não cumpriam os horários mas cumpriam com os deveres. E a verdade é que sempre que eu precisava eles estavam lá e certinhos a fazer tudo o que lhes pedia. Sempre a sorrir com os seus reluzentes dentes d’ouro. E apesar do começo tropeço, cada vez que me viam faziam uma festa e quando se foram embora até choraram. É curioso como a ajuda dos oficiais de ligação por mais pequena que seja tenha uma importância tão grande para quem vem do outro lado do mundo.

 

Ainda tive outro veleiro. Um polaco. Sobre o qual tenho muito pouco a dizer. Raramente lá estavam, quando estavam a namorada do dono dizia que estava sozinha. Depois aparecia o namorado (sem perceber nada) e convidava-me para almoçar... Acho que a relação deles precisa de terapia. E a tripulação de consultar os AA. Não sei se conseguiram chegar a Cadiz.

 

Os pontos altos? Estou muito orgulhosa por já saber onde é a proa, a popa, o bombordo e o estibordo! É pouco? É! Mas para mim é como se me tivesse transformado numa enciclopédia marítima!

 

 Foto: Paulo Sequeira

 

Cocktail com a Infanta de Espanha O meu habitual atrevimento levou-me ao cocktail com a Infanta de Espanha. Qual Infanta? Não faço a menor ideia. E eu vi-a? Sim. De relance. A entrar no belíssimo Juan Sebastian de Elcano.  Mas o que interessa é que eu agora frequento festas com a família real espanhola.  E que mais posso dizer? La marina de guerra española me encanta muchooooooooooooo! Mais parecia da Noruega... Só louros! Mas a marinha portuguesa é a minha. É a nossa! E será sempre a melhor e a mais linda de todas! O meu muito obrigada ao Comandante Proença Mendes pelo convite e à Ana Neves pela companhia.

 

Ser Portuguesa. No último dia foi presenteada com um passeio de semi-rígido no Tejo para ver a largada dos veleiros. Primeiro pensamento: Eu? Mas por que é que o Comandante me quer castigar? Vou vomitar os meus colegas todos! Segundo pensamento? Mas o que será um semi-rígido? Agora já sei. É um requisito para participar no “Miss T’Shirt Molhada”. Sai de lá a pingar. A pingar? Mentira! Por todo o meu corpo e roupa escorria água como no Niágara! E a água é salgada! Mas valeu a pena? Foi uma experiência incrível e valeu a pena cada segundo! Sobretudo quando vi o Sagres com as velas abertas e a bandeira de Portugal! Magnífico! Senti-me profundamente emocionada e orgulhosa do meu país. Sou patriota assumida e continuo a acreditar no meu país. Podem falar em crise, em políticos que só fazem disparates ou no que fomos no passado e não voltaremos a ser. Eu prefiro acreditar no que sei que somos. Somos um povo incrível. Temos um enorme potencial. Estamos esquecidos. Só isso. Mas todas as árvores já foram sementes. E eu acredito muito na nossa semente de Portugal. O Sagres lembrou-me isso mesmo!

 

Finalmente, as pessoas. Mais de duas centenas de voluntários que deram uma semana da sua vida em representação do nosso país. Principalmente os meus colegas oficiais de ligação cuja relação se tornou bem mais próxima. Uma equipa muito diversificada. Diferentes idades, profissões, formas de estar, histórias de vida. Quase ninguém conhecia ninguém. Vimo-nos duas vezes e sem sequer ter tempo para fixar as caras. Podia ter corrido muito mal mas é nestes momentos que a vida mais me surpreende. Tive o imenso gosto e privilégio de conhecer pessoas excepcionais, incansáveis, sempre dispostas a ajudar, sempre com um sorriso nos lábios. Todos voluntários, unidos e a trabalhar durante uma semana. Desinteressadamente. A nossa capacidade de entrega às causas é inigualável. Somos um povo espectacular – e os nossos voluntários estrangeiros foram tão “tugas” como eu! Sempre com a nossa extraordinária capacidade de “desenrascar” qualquer coisa em qualquer situação. Ajudámos os nossos veleiros e ajudámos os nossos tripulantes mas observei com particular gosto que constantemente nos ajudámos uns aos outros. Acho que fomos uma equipa extraordinária! Obrigada a todos!

  

A grande pergunta: Voltaria a tirar uma semana de férias para fazer esta loucura? Depende... Será que podem antecipar o Tall Ships 2016 já para amanhã?

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publicado às 15:42



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