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A cada segundo - Capítulo 1 - Parte 2

por reporterdesaltosaltos, em 29.04.15

 

Tinha pressa. Tinha muita pressa. Vitória da Silva Félix queria sair de Lisboa o mais rápido possível mas estava há mais de vinte minutos à espera de um táxi que devia demorar apenas cinco. Não se compreendia. A cidade estava praticamente vazia. Pelo menos de moradores e de força laboral. Olhou pela janela do seu quarto para a Praça Luís de Camões e reparou em dezenas, talvez centenas de turistas reunidos. Provavelmente à espera do guia para seguirem para um dos mais famosos restaurantes do Bairro Alto. Não os modernos, fashion, mas os mais típicos. Mais tasca. Eles adoravam tascas.       

                                        

Vitória olhou para trás, começou lentamente a rodar sobre si e tentou memorizar todos os detalhes do quarto. Adorava as duas portadas para a rua do Alecrim, o soalho em madeira, o cheiro de óleo de cedro. Ia sentir saudades da sua cama. Grande mas não demasiado. Ia sentir saudades dos lençóis de linho cremes e da colcha branca e macia. Imaculada. Gostava daquela sensação de serenidade que o quarto lhe transmitia. Cheirava sempre a baunilha - talvez das velas espalhadas pelo quarto - mesmo quando abria a janela e entravam os cheiros que desciam pela rua. Era um verdadeiro luxo morar no Chiado e ter vista para o rio. Por momentos, entristeceu-se. Recordou que só tinha aquela casa porque os pais tinham falecido. Ela detestava heranças e ainda mais naquelas circunstâncias trágicas. O pai tinha morrido de cancro cerca de dez anos antes e a mãe morrera pouco depois, sem explicação ou causa confirmada. Dizia-se que de desgosto. No meio das suas perdas, herdou as economias dos pais emigrantes e surpreendeu-se ao saber que não era apenas um pé-de-meia. Eram dois pés-de-meia e as respetivas pernas das calças. Ao longo de uma vida de sacrifícios, que agora considerava inacreditáveis, tinham amealhado uma pequena fortuna. Permitiu-lhe mudar de vida e ganhar um novo estatuto. Era difícil acreditar como noutros tempos tinha passado tantas dificuldades. Não passou fome mas teve sempre muitas coisas em falta. Agora tinha uma vida de abundância, morava no bairro mais chique de Lisboa e tinha uma casa a condizer. Saiu do quarto e olhou para o corredor. As prateleiras carregadas de livros, novos e velhos, muitos já amarelados pelo tempo, muitos ainda por abrir pela primeira vez. Gostava de olhar de frente para aquela prateleira e semicerrar os olhos, como se estivesse a apreciar um quadro. As cores surgiam-lhe, evidenciavam-se e cada livro falava para Vitória. Leste-me no Outono em que entraste para o 5.º ano. Leste-me quando estavas com varicela. Leste-me no Verão em que o teu avô morreu. Leste-me por gosto. Leste-me por obrigação. Leste-me até meio. Leste-me sem parar. Leste-me numa noite. Leste-me sem respirar. Leste-me. Os seus olhos pararam. As Vinhas da Ira. Uma família de emigrantes que luta pela sobrevivência sem sucesso. A forma como aquele livro terminou, chocara-a. Tinha chorado. Uma mulher por compaixão alimenta do seu peito o homem prestes a morrer de fome. Nunca tinha chorado com um livro…           

 

O telefone tocou. Vitória atendeu. Era engano. Um telefone à antiga, dos anos 80, encarnado, com os números sumidos e sem brilho. Era das poucas coisas na casa que não combinavam com a decoração moderna e minimalista. O telefone encarnado tinha um valor sentimental. Dos tempos em que morava com a avó e ela corria para o telefone para atender os pais. Falavam depressa para não gastar muito dinheiro e por vezes ficava na dúvida se estariam a chorar. Diziam à pressa que estavam quase a chegar, mandavam beijinhos e desligavam. Os pais nunca chegavam a falar com a avó nem com qualquer outra pessoa. Aproveitavam aqueles dois ou três minutos para falar apenas com Vitória. Ela pulava de alegria e acreditava sempre que os pais chegariam em breve. Entretanto, enviavam-lhe postais dos países por onde iam conseguindo trabalhar. Um dia, da Holanda, enviaram-lhe um postal com um gato bebé. “Estamos quase a chegar. Este gato é parecido com o nosso Bolinhas, não é? Beijinhos, filha. Adoramos-te muito.” Ainda hoje o guardava numa caixa de metal azul petróleo que lhe tinham trazido de Paris. Guardava como tesouro qualquer pequena lembrança desse tempo. Postais, folhas de cheiro, papel de embrulho dos presentes que recebia e até mesmo os papéis dos rebuçados e bombons que entretanto comia. Eram os seus tesouros e passados mais de vinte e cinco anos continuavam a ser os seus tesouros. Iam ficar no corredor dentro da caixa de metal azul petróleo. Suspirou profundamente, voltou a encher o peito de ar, levantou a cabeça e o seu olhar dividiu-se. Primeiro para a cozinha. Era um orgulho. Era onde gostava de receber os seus amigos que sempre elogiaram o seu bom gosto. Mármores e azulejos pretos com pequenas pedras cintilantes e eletrodomésticos cinzentos, linha moderníssima. Balcão, cadeiras altas metálicas, uma ilha grande no centro da cozinha decorada com uma fruteira sempre bem recheada de peças de fruta fresca. Fruta tão reluzente que nem parecia verdadeira. Tinha vista para uma pequena varanda ajardinada onde guardava a sua horta vertical de ervas aromáticas. Cheirava sempre a lúcia-lima. Era a empregada quem cuidava da “horta”. Vitória queria fazê-lo, até como terapia mas parecia nunca encontrar o momento certo. Desculpava-se com a falta de tempo. Orgulhava-se da sua louça, branca com fio dourado, muito tradicional, Vista Alegre. Era uma acérrima defensora dos produtos nacionais e tinha de facto muito bom gosto. Aquela cozinha tinha recebido as amigas e os amigos mais íntimos nas alturas mais especiais. Cozinhava para e com eles, na verdade, mais com eles. Cozinhava sempre com companhia. Sozinha nem uma sandes fazia. Dividiam as tarefas e iam comendo ao mesmo tempo que se cozinhava. Era o único trabalho de equipa no qual se sentia realmente à vontade. Não se preocupava com os louros, nem com assumir os erros. Ali os erros e os acidentes eram permitidos desde que não envolvessem sangue ou facas. Aquela cozinha ecoava as gargalhadas passadas, às confissões de olhos fechados e em voz alta, aos abraços e aos beijos de muitas partidas e de muitas chegadas. À direita, fixou a sala. A vista sobre o Tejo era incrível e aquele rosa de final de tarde jogava na perfeição com os tons quentes da decoração. Chocolate e rosa. Vários rosas. Rosas quentes. E sim, elegantes e gordas jarras de vidro bem recheadas com flores rosa. Vitória sentia que aquela casa era a sua casa. O lar. Aquele sítio onde sempre nos sentimos bem e para o qual sempre voltamos. Sabia com toda a clareza que um dia ia voltar ali. Vitória agarrou nas malas de viagem, colocou-as do lado de fora da porta, olhou pela última vez o corredor/biblioteca, fechou e trancou a porta com força. Levantou a cabeça, encheu o peito de ar e virou as costas. Foi rápida, andou a passo determinado até entrar no elevador e ficar novamente de frente para a porta da casa. Pela primeira vez, aquela visão, a porta do elevador a fechar-se à sua frente, cortou-lhe a respiração como se tivesse um bolo inteiro na garganta e não o conseguisse engolir. Sentia as veias a latejar e quase lhe parou o coração. Uniu os dentes com força, agarrou nas pegas das malas como se estivesse a sufocar alguém e impediu que as lágrimas lhe descessem o rosto. O elevador estava a demorar uma eternidade para descer apenas seis andares.

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Assim que o elevador parou, Vitória foi direta ao taxista, cumprimentou-o secamente e disse-lhe que estava cheia de pressa. Viu de relance o seu Mini Cooper encarnado estacionado ao fundo da garagem e virou a cara. Saíram do condomínio e o taxista, António Ribeiro - assim dizia na placa do tablier - condenou quase de imediato qualquer recomendação de serviço. Recusou-se a seguir as regras de trânsito que o obrigavam a virar à direita, subir a rua, contornar a praça à esquerda e depois descer. Virou imediatamente à esquerda e deixou Vitória furiosa. Perguntou-lhe se ele não tinha visto o sinal. Ele disse que sim. Ela ficou ainda mais furiosa. Não disse que estava com pressa? – Defendeu-se. Vitória gostava de cumprir as regras. Podia ter muitos defeitos mas considerava-se uma pessoa responsável, cumpridora da lei e não suportava os típicos chico-espertos. Aquela relação, ainda que durasse apenas dez minutos não ia correr bem. Não correu. O ar estava irrespirável, abafado, o Sr. António cheirava a transpiração de três dias. O táxi estava empoeirado, a música estava alta demais, a janela abria pouco mas ainda piorou quando aquele calor da rua a invadiu de forma violenta. Vitória gostava de conforto e já sentia saudades do seu ar condicionado. O Sr. António queria fazer o percurso junto ao rio e Vitória acedeu. Minutos depois paravam a meio da avenida Infante D. Henrique e ouviam na rádio informações de última hora sobre o trânsito. “A evitar a Infante D. Henrique com acidente na via da direita e corte parcial de estrada. Trânsito lento.” Tudo estava contra Vitória. Só faltava o taxista começar a meter conversa com ela. E começou. O calor anormal praticamente no final de Agosto, o trânsito e as obras infindáveis da cidade, os impostos a subir, os assaltos, os assaltos sob forma de impostos. O Sr. António não se calava. Quanto mais Vitória o ignorava mais ele falava. Ela não respondia acreditando que ele se calaria. Nada disso. Continuava a falar sobre o desemprego, os filhos tirarem cursos para nada, a necessidade de emigrar. Vitória estava a sufocar! Já não o conseguia ouvir e não estava a suportar o calor e o desconforto daquele táxi sujo, modelo do final dos anos 90. Começou a desapertar o vestido branco e descalçou os seus Louboutin mas apenas o tempo suficiente para sentir os pés aliviados. Tentou abstrair-se e olhou para o rio. A brisa começava a refrescar. O céu rosa transformava-se em várias camadas de violeta que escurecia a cada minuto. Pensou nos momentos escuros da sua vida. Estava a viver um deles. Os últimos tempos tinham sido como aquele rosa. Primeiro excitante, bonito, terno, claro. Depois foi escurecendo e em menos de nada o pânico da noite instalou-se. Vitória fugia.

 

 

Beatriz atravessou o jardim a correr. Em menos de nada, o homem que passeava vagarosamente, subiu ao muro da falésia e atirou-se ao rio.

 

 

O trânsito continuava lento mas fluía um pouco melhor. Vitória ficava sempre furiosa com a curiosidade dos portugueses quando há acidentes. O português, mais do que gostar de sangue, gosta de drama e de orçamentar. Temos um pequeno financeiro dentro de cada um de nós. Precisamos de avaliar os estragos, verbalizar a alto e bom som o nosso choque, perceber como terá acontecido aquele acidente e como é que aquela chapa vai ser arranjada. Se tiver arranjo. E vai sair caro de certeza. “O seguro de qual dos condutores é que irá assumir a responsabilidade? O prémio vai aumentar imenso, já se viu. Quem ia a conduzir, estava distraído, alcoolizado? E feridos? É impossível não ter havido feridos com uma batida daquelas. Muito violenta. Se não houve feridos é porque houve um milagre. Houve ali uma mão misteriosa que os protegeu. Um anjo da guarda.” Vitória sentia-se desprotegida. De certeza que ela não tinha anjo da guarda. Só podia contar com ela e com mais ninguém. Era assim que estava habituada desde miúda, a tomar conta de si. Um carro apitou e ela acordou daquele pensamento. Finalmente tinham ultrapassado o acidente e seguiam a toda a velocidade pela avenida Marechal Gomes da Costa quando o carro da polícia que os seguia fez sinal para encostar. Não poderia acontecer mais nada? O universo estava contra ela. Até a polícia queria impedir que saísse de Lisboa. Seria um sinal? Deveria ficar? O Sr. António discutia azedamente com o agente e, sem Vitória perceber como, conseguira sair ileso e sem ser multado daquela algazarra. Entrou no carro de peito inchado, sorridente e esperando dela um “Como é que conseguiu?”. Pela primeira vez, Vitória sorriu e agradeceu-lhe acenando com a cabeça e um ligeiro pestanejar. Ele retribuiu o gesto pelo espelho retrovisor. “Eu não tenho medo da polícia. Aqui o taxista mostrou-lhes com quem não se devem meter!” Vitória teve um inesperado ataque de riso, de tal forma que chegou a chorar a rir. O Sr. António ficou tão entusiasmado com aquela forma de aprovação que se dirigiu às chegadas e não às partidas do aeroporto de Lisboa. Vitória já nem sem importou. Finalmente estava prestes a apanhar o avião.

 

Beatriz saltou o muro junto à vegetação mais densa, desceu a correr o mais rápido que lhe era possível, arrastando o rabo junto ao chão até ao primeiro socalco da falésia. O homem estava deitado no chão com a cabeça a sangrar. Os olhos fixos e vidrados no outro lado do rio. Estava morto.

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