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Sou mais forte que tu!

por reporterdesaltosaltos, em 07.03.12

Quem nunca teve um vício? Todas as pessoas - pelo menos as que eu conheço - têm ou tiveram um vício. Eu também já tive. Na minha infância tinha o vício de roer as unhas. Eu era Maria-rapaz, praticava um desporto de rapaz e ainda por cima roía as unhas. Muito feminina que eu era. Por volta dos meus 10 anos decidi parar com o vício e pedi à minha mãe para me comprar um daqueles vernizes que sabia  a “veneno”.

 

A minha mãe apoiou a minha decisão e retirou do nosso curto orçamento familiar o dinheiro para o maldito verniz. Usei-o durante dias, esquecia-me disso com frequência e metia as unhas na boca a todo o instante. Imediatamente começava a fazer caretas e durante horas aquele sabor amargo (tipo fel) não me largava as papilas gustativas. Deixei de roer as unhas? Deixei. Mas não foi por usar o verniz. Foi por não o usar – sim eu sou diferente em tudo. Sentia-me tão culpada pelo dinheiro mal gasto e pelo esforço e boa vontade da minha mãe que decidi parar com aquele vício sem recurso a nada mais que à minha força de vontade.

 

Passados alguns anos comecei a fumar. A estupidez da adolescência. Necessidade de afirmação, imitação, rebeldia, tanto faz. Eu era a conhecida fumadora “crava”. Raramente comprava porque na verdade fumava muito pouco. Na escola secundária (anos 90) fumava nos intervalos numa altura em que fumar nas escolas era perfeitamente normal – era um belíssimo sistema educativo! Fumava mais quando saía à noite mas aí comprava tabaco “a meias” com as minhas amigas. Acordava quase sem voz mas porque se podia fumar em qualquer discoteca sem restrições. E aí nunca fumamos apenas o nosso cigarro mas também os outros 40 ou 50 “a queimar” em simultâneo.

 

Uma das alturas da minha vida em que mais fumei foi quando trabalhei em desportos motorizados. A adrenalina subia demais e aquelas três primeiras inalações deixavam-me mais calma. Mas mesmo nessa altura acho que sempre tive um papel de actriz secundária na carreira do c. Por mês, o meu máximo eram 3 maços. Ou seja, fumava uma média de dois cigarros por dia. Acho que tinha mais o hábito social. Num dia normal fumava sobretudo quando ia tomar café - sendo que só aguento um café por dia – e podia passar vários dias sem fumar. Aliás podia passar dias, semanas e até meses sem me lembrar de fumar. Não posso dizer que era uma viciada mas tinha um pequeno vício...

 

 

Quando a lei do tabaco proibiu o fumo em recintos fechados encontrei a altura certa para deixar de fumar. Até porque o tabaco dava-me fugazes momentos de calma e pesados momentos de sentimento de culpa. Faz mal à saúde, é um desperdício de dinheiro (no meu caso não era muito) sou um péssimo exemplo para a minha sobrinha, custa-me a correr (ainda hoje – acho que não era por causo disso) o cheiro é horrível e a lista continua... Decidi deixar e desde 6 de Julho de 2008 que não fumo mas estou sempre consciente que posso ter um momento de fraqueza. Uma recaída. Serei “fumadora em recuperação” até ao final dos meus dias.

 

Sempre que sentia necessidade daquela calma fechava os olhos e rezava assim “Eu sou mais forte que tu! Eu sou mais forte que tu! Vou vencer-te meu sacana!” E venci. Pelo menos até hoje porque um vício por mais pequeno que seja é sempre um vício! É como os programas de viciados anónimos. Cada dia é um dia. Cada dia é uma vitória. Se cederes começas do zero. Não me sinto absolutamente nada tentada embora de vez em quando (muito raramente) sonhe que estou a fumar. Assim que me apercebo disso fico zangada comigo, depois acordo furiosa e felizmente 10 minutos depois já passou!

 

Não tomei comprimidos, não coloquei pensos, não fiz hipnoterapia, nem qualquer tratamento. Só força de vontade. É daquelas coisas em que eu acho que nós temos de nos bastar. Se nos apoiamos em muletas vamos sempre duvidar se seremos capazes de sobreviver sem elas. A verdade é que fiz uma promessa a mim mesma. Assumi um compromisso comigo. Fiz uma espécie de acordo em que só eu é que ganho. Tenho cumprido e tenho ganho muito com isso. E perdi o cheiro da nuvem de fumo - que envolve os fumadores sem eles se aperceberem – entre outros ganhos. Ganhei em saúde, em boa disposição, em hálito fresco e em alguns pequenos prémios associados à minha vitória.

 

A minha vida deu um grande salto qualitativo em várias aspectos depois de deixar de fumar – coincidência ou não? Confesso que à parte de ter desenvolvido rinite alérgica há uma melhoria significativa relativamente à qualidade de vida. No geral e até ao dia de hoje, acho que estou a ganhar. Eu sou mais forte! Agora eu tinha um pequeno vício. Quem tem um vício à séria está bem tramado!...

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publicado às 21:28



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